Cinema

Crítica | A Filha do Meu Melhor Amigo

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Julian Farino é um diretor londrino acostumado a encabeçar episódios de séries como Byron, The Office-US, Sex And City, Roma entre outras muitas. Em seu primeiro longa-metragem, faz uma comédia dramática que emula alguns dos elementos de filmes indie - a saber a temática, fotografia e disposição de cores - bastante populares e com público cativo, vide Juno, 500 Dias com Ela, Ruby Sparks etc.

O roteiro de Ian Helfer e Jay Reiss, também estreantes no cinema mainstream, foca em duas famílias vizinhas em Nova Jersey, e que tem na rotina a segurança de suas vidas – mesmo que todos ali passem longe do contentamento com a condição em que existem. A história é narrada por Vanessa (Alia Shawkat), uma menina frustrada profissionalmente, que aparenta ter bastante ambições, mas que faz pouco esforço para alcançar seus objetivos. Apesar disso, a base do guião não é nela, e sim na geração anterior – pelo menos nesse primeiro momento – especialmente no casamento malfadado entre Paige  e David – pais da relatora, e na vida privada dos seus melhores amigos Terry e Carol.

A vida de todos é imutável, e eles são incapazes de quebrar qualquer paradigma, até que a filha do casal Ostroff retorna para casa, após ter seus planos de casamento frustrados. Nina (Leighton Messter) volta desiludida e pouco preocupada com qualquer coisa que não seja os seus próprios desejos, e se mete em uma relação que rompe a amizade entre as duas famílias. O subúrbio é utilizado como o avatar da rotina e do medo da variação, o argumento toca em temas como crise de meia-idade, término de casamento, ótica adolescente sobre divórcio dos pais etc. Outro ponto de interessante discussão é até que ponto é valido apelar para a tradição e para os laços familiares quando estas coisas se interpõem a felicidade própria.

As atuações são razoáveis, Hugh Laurie que ainda possui muito do Doutor Casa em sua caracterização, mas dá uma personalidade diferente ao seu personagem passivo de meia-idade. Messter não compromete, mas faz pouco acreditar em seus dramas. Entretanto o destaque certamente é Catherine Keener, até por ter em mãos o personagem mais rico da película, e que apresenta maior evolução deixando de ser a esposa dedicada, simulada e ilusória para se tornar uma mulher cheia de ideais e que dedica sua vida a atingi-los - além é claro de ter protagonizado a cena mais cômica e agridoce do filme, onde destrói parte da decoração de natal da fachada de sua antiga casa para logo depois agir de forma calma e serena no interior da festa natalina.

O caso de Nina foi o catalisador da mudança, o evento que modificou o status quo e fez todos perceberem o quanto os personagens estavam insatisfeitos com as próprias vidas, o que inclui a própria Nina, Paige, David, Carol, Terry e mesmo Vanessa, além é claro de trazer clareza de o quanto eles precisavam se transformar.

Sair da zona de conforto é difícil, mas é necessário em alguns pontos da vida. David percebe tarde demais que certos caminhos não têm volta. The Oranges é uma comédia de incômodos e constrangimentos, um pouco pretensiosa, mas ainda assim de divertimento fácil.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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