Cinema

[Crítica] Homem Comum

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Homem Comum 1

Baseado em uma proposta que se modificou com o tempo, Homem Comum era para ser um documentário de Carlos Nader sobre o sentido da vida iniciado nos anos 1990, quando o diretor visitou homens simples, caminhoneiros, e faria junto a eles algumas perguntas filosóficas a respeito da inevitabilidade da morte, fruto de uma obsessão que o realizador tinha em relação ao filme A Palavra (ou Ordet), do cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer.

Nader inseriu pedaços inteiros do filme dos anos 1950, resumindo-o e contando grande partes de seus segredos e mostrando-o como objeto de análise de seu documentário. A mudança no projeto de longa-metragem se deu logo no início, com uma troca de caráter completa, ocasionada pela paixão que Nader teve pela trajetória de Nilson de Paula, um caminhoneiro paranaense, que tinha em sua base familiar o maior motivo de seguir vivendo, como era comum para milhares de brasileiros.

A intimidade do homem passa a discutir as perguntas planejadas primariamente, simplificando as questões. Simultaneamente há um agravamento do questionário, já que a rotina de Nilson e dos seus passa longe de ser fácil de lidar, com dramas familiares que se avolumam, refletindo a condição de perdas contínuas, inexoráveis na vivência humana.

A necessidade do diretor em injetar metafísica era comum na época, e segue viva nos idos dos anos 2000, ainda que este aspecto esteja mais velado na década atual. A narração de Nader, que deveria elucidar as questões difíceis, acaba por tornar óbvias as demandas levantadas, sem permitir ao público que haja alguma conclusão que não seja dada pelo próprio realizador. O aspecto, que deveria ser negativo, acaba sendo uma surpresa positiva, já que fomenta uma questão fundamental da vida, que é o incômodo com algumas situações cotidianas, que fazem eco na difícil relação de Nilson com sua filha, sendo esta um dos poucos resquícios de sua vida anterior, daquela outra praxe do primeiro ato.

Nilson tem certezas que só a simplicidade é capaz de garantir ao homem, e a escolha por levar todo o script para esta vertente é um acerto em cheio do cineasta. O filme invade a vida e a vida se passa na frente da câmera, de modo literal, em um comentário mais metalinguístico do que qualquer pretensão alternativa e arrogante da premissa original. Homem Comum consegue de modo comovente flagrar a sensibilidade do cotidiano e a dificuldade que o sujeito médio tem em equilibrar suas próprias emoções, sensações e sua existência, sem grandes mensagens de aprendizado e sem apelar para fórmulas fáceis.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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