Cinema

[Crítica] Muito Romântico

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De proposta hermética e linguagem cinematográfica não normativa, Muito Romântico é um longa metragem da dupla Gustavo Jhan e Melissa Dullius, que foi responsável basicamente por direção, atuação e roteiro do produto. A dupla que se auto denomina DISTRUKTUR trabalha juntos há algum tempo, residindo em Berlim e gravando grande parte de seu acervo filmográfico. O novo filme toma emprestada a mesma fórmula presente em A Máquina do Tempo, curta de apenas cinco minutos e exibido em 2013. O problema é que a ideia que funcionava bem para algo mais conciso se torna esticada quando transformada em longa.

A estética do filme é curiosa, por tentar evocar a memória afetiva cinéfila do espectador, fazendo referencias óbvias a clássicos da Novelle Vague, mas sem inserir qualquer sentido que gera a mínima discussão. Para muitos, a carreira de Jhan é mais lembrada por ser este o protagonista de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, e em comum com o filme pernambucano há a tentativa de ser contemplativo, embora o fato de ser não linear se assemelhe a outra escolas, não necessariamente copiando os aspectos positivos dessas.

O roteiro é solto, possui um fiapo de história, exibindo um casal que é vivido pelos próprios cineastas que viajam pelo mundo em troca de novas lembranças para o amor dos dois. Os personagens não parecem ter qualquer traço de normalidade, mas também não tem nuances, complexidade ou qualquer adjetivo que justifique o fato da câmera persegui-los. O que se vê é uma rotina boba, regada a algumas bebedeiras com gente de visual alternativo, sem qualquer prerrogativa ou discussão, somente se registra o que os olhos podem ver.

O longa possui apenas 72 minutos, que parecem ser muito mais extensos. O teatrinho de artificialidade do filme mira um humor nonsense, mas entrega uma história sem motivos para existir, monótona e pretensiosa, como uma versão burguesa da discussão sobre a globalização, banal em todas as suas ramificações. Mesmo entre os coadjuvantes há poucos que não são de um absoluto incômodo, e quando não são, passam muito rápido em tela. Muito Romântico ainda tem um desfecho que dialoga com A Máquina do Tempo, soando ainda mais óbvio e frívolo, resultando em um fracasso na tentativa de não ser um produto quadrado, uma vez que a vontade de soar indie o coloca na mesma vala comum dos sub produtos normativos que o filme busca criticar.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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