Cinema

[Crítica] A Mulher Que Se Foi

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Lav Diaz é um diretor filipino conhecido por dois fatos distintos, sendo o primeiro a investigação dos costumes e rotinas de seu povo, observando o todo com um olhar profundo e visceral e o segundo em registrar seus filmes através de durações enormes. A Mulher Que Se Foi reúne essas duas características, ainda que tenha uma duração de apenas três horas e quarenta e seis minutos. A história é baseada no conto God Sees The Thruth, But Waits, de Leon Tolstói, e é focada na personagem Horacia Somorostro (Charo Santo-Concio), uma mulher que é libertada após décadas de uma reclusão injusta, só tendo essa libertação após o assumir da pena da verdadeira culpada.

Este primeiro fator segue um mistério ao longo do filme, assim como as motivações de Horacia uma vez que se vê novamente transitando pelas ruas e vias comuns. O costume do cárcere a faz ter um receio tremendo, influindo até no resgate familiar que ocorre a partir de suas ações. O re-encontros são acompanhado do pedido de que não espalhem sobre a sua saída da prisão, fato que esconde um segredo somente revelado ao final.

Diaz mostra a periferia de uma cidade, tentando emular uma universalidade suburbana, mostrando que o drama ali mostrado poderia ocorrer em qualquer país sub desenvolvido e que é refém de um poder paralelo tão presente no cotidiano do homem comum. A jornada de Horacia é de completo reconhecimento e tentativa de resgate de seu antigo ethos, mostrando os re-concertos de seu núcleo familiar convivendo com mudanças drásticas tanto de seus herdeiros quanto de seu ideário já modificado pós estadia na cadeia.

O roteiro se desenrola de maneira lenta, apresentando nuances em absolutamente cada sub trama. Mesmo personagens periféricos e normalmente relegados a um papel coadjuvante em filmes como esse são trabalhados de modo a se conhecer toda a sua intimidade em poucas falas e cenas em que estes estão em tela. O filme se debruça sobre homens e mulheres marginais, fugindo de qualquer maniqueísmo barato, ao mostrar mesmo os personagens que lançam mão do banditismo como pessoas passíveis de erros e de carências, humanizados ao extremos mas que não justificam seus atos.

O fim dos arcos dos personagens são muitíssimo bem trabalhados, em especial a da prostituta transexual Hollanda (John Lloyd Cruz), que tenta agradecer os cuidados de Horacia fazendo algo que ela mesma não teria coragem para fazer. A Mulher Que Se Foi é um filme caro, profundo e que fala de maneira muito bela sobre o destino de uma mulher que se cansa de esperar seu destino melhorar, mirando uma abordagem que poetiza as tragédias inerentes a vida comum.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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