Cinema

Crítica | O Esgrimista

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Baseado em uma história real, O Esgrimista tem feito sucesso por onde passa, se tornando o filme estoniano (co-produzido pela Finlândia e Alemanha) de maior sucesso.

Fugindo do serviço secreto soviético de Leningrado, o esgrimista estoniano Endel Nelis volta ao país e se esconde em uma escola de ensino básico, onde começa a dar aula de educação física. Ao ensinar esgrima para os jovens, ele começa a lhes dar alguma esperança.

O roteiro da finlandesa Anna Heinämaa preferiu usar uma narrativa épica, além de copiar a estrutura de filmes comerciais onde o embate entre um revolucionário (o professor) enfrenta o conservador (o coordenador da escola). O roteiro só não fica pobre em originalidade por causa dos personagens infantis (e do contraste entre idade com o professor), além do universo do treinamento e competição da esgrima, um esporte que poucos conhecem.

Retratada como um esporte de pouco interesse para o regime, a esgrima, além de não ser considerada educativa para crianças, era perigosa. Além disso, ela também era vista como um esporte medieval, fazendo uma alusão ao passado comunista e soviético da Estônia.

Para reforçar esta visão obtusa, a ambientação em uma cidade distante e quase abandonada, onde seus habitantes são regidos por um excesso de burocracia dentro de uma ditadura, foi pontual. O roteiro mostra claramente que havia mais divisão do que igualdade naquele microcosmo da sociedade soviética.

No entanto, a grande força do roteiro reside no protagonista. Endel é um personagem denso não somente pelo passado obscuro que ele reluta em nos revelar, mas também pela dúvida que carrega entre fugir do passado ou criar uma nova vida ajudando as crianças daquela escola. E a virada mais interessante do roteiro está no fato de que é justamente a vida nova, as crianças, que o ajuda a enfrentar o passado de que ele tanto foge em Leningrado. É a mensagem do roteiro de que, para se poder viver plenamente o presente e se programar para o futuro, é preciso se estabelecer com o passado.

A direção do também finlandês Klaus Härö consegue melhorar o roteiro dentro da sua proposta melodramática. O seu domínio de narrativa consegue ambientar bem o espectador desde o início e se sobressai nas cenas de intimidade entre o protagonista e a professora, em especial nas cenas em que ele ensina a ela a esgrima, também durante as aulas com as crianças, e na sequência final que, apesar de clichê, manteve a proposta épica. A direção de atores mantém as caricaturas, deixando o filme uniforme.

A atuação não teve nenhum grande destaque fora o protagonista, interpretado por Märt Avandi. Ele fez o que lhe pediram, porém poderia ter dado maior expressão facial nas cenas com maior peso dramáticio, ter passado a angústia que o seu personagem sentia dentro da narrativa.

A fotografia de época de Tuomo Hutri teve pouca saturação nos tons de marrom e amarelo. Ela se torna interessante na estação de trem: o excesso de fumaça vira a metáfora para o místico, o desconhecido, o medo que gera as mudanças nas nossas vidas. A luz branca na sequência final das lutas representa o sonho que foi para as crianças chegarem até ali.

O filme tem um bom ritmo, a edição de Ueli Christen e Tambet Tasuja é invisível. A construção épica na sequência final da luta trouxe clichês à tona, foi aqui onde a edição mais trabalhou.

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Texto de autoria de Pablo Grilo.

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