Cinema

[Crítica] O Monstro de Mil Cabeças

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A sabedoria popular aponta uma semelhança entre advogados e planos de saúde: em algum momento, será necessário utilizar seus serviços. Apesar da afirmativa em tom de anedota, os cuidados da saúde, bem como a assistência as leis, são bases que deveriam estar disponíveis para a população em geral. A realidade, porém, se difere deste conceito, e muitos procuram planos de assistência de saúde privados para suprir necessidades que os serviços públicos são incapazes de atender. Porém, não é raro notícias sobre pacientes que precisaram acionar a justiça para se valerem dos direitos adquiridos ao assinar um plano de saúde, despesa normalmente cara e nem sempre com a qualidade garantida quando é necessário utilizá-lo.

Baseado no romance de Laura Santullo, que também assina o roteiro da produção, O Monstro de Mil Cabeças, de Rodrigo Plá, é um pequeno exercício narrativo sobre uma mulher a procura do tratamento adequado para o marido doente, e do quanto a burocracia e a ineficiência da seguradora deixa-os desamparados. Em geral, tem-se a impressão que um plano de saúde oferece total cobertura aos seus segurados. Porém, em procedimentos que necessitam de um custo elevado, cada paciente passa por uma análise do caso para terem o procedimento autorizado ou não. Uma burocracia que defende a empresa de sua perda financeira se autorizasse todos os procedimentos de seus contratantes.

Vivendo em uma situação semelhante, em que a seguradora não aceita novos exames no marido, a esposa Lúcia escolhe uma medida drástica e usa a força e a violência para coagir a diretoria da seguradora a autorizar o tratamento do marido. Diante de uma situação de grave enfermidade familiar, em que há um desgaste natural das emoções, a burocracia surge como mais uma dor a ser enfrentada.

O ato desesperado em cena revela o quanto o sistema de saúde desenvolvido nos tempos presentes está defasado. A violência imposta em cena, demonstra o limite que muitas famílias vivem, desamparadas ou pelo sistema de saúde do governo ou pelo plano particular que deveria cobrir adequadamente seus clientes.

A breve duração do filme permite que a história seja bem desenvolvida sem que a ação se prolongue mais do que necessário. Transmite o senso de urgência e desespero da personagem que, diante de uma situação inaceitável, escolhe um caminho sem volta a procura de salvar o marido. Sem guardar grandes cenas para o final, o longa se constrói nessa tensão desesperada e insere, em diversos momentos, falas em áudio de uma audiência na justiça, antecipado os fatos antes das cenas finais. Um desfecho que, como é de se esperar, não é favorável para a família, principalmente após a violência.

Ao antecipar o desfecho natural, a trama evita tratar o tema como um espetáculo em que o apelo dramático é ampliado de maneira exagerada, a procura de ganchos narrativos. Mas compõe um quadro de tensão crescente em uma análise ficcional que simboliza a falência da concepção do sistema de saúde atual, o qual repete a roda do mundo, massacrando valores sempre a favor de manter corporações enriquecidas.

Simples em sua execução, mas com um interessante tema simbólico e necessário, O Monstro de Mil Cabeças é uma reflexão sobre os tempos presentes vividos no limite da sanidade.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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