Cinema

[Crítica] O Novíssimo Testamento

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O Novíssimo Testamento - poster

Como tema, a religião sempre se traduz como sensível na discussão. O conflito entre fé e incredulidade permanece ecoando por séculos e as diversas parábolas narrativas com a mensagem cristã, bem como seus doogmas, transformaram-se em temas para diversas histórias, tanto por uma vertente explicitamente religiosa, voltada para os fiés, como o recente Os Dez Mandamentos – O Filme, adaptação da novela da Record, como produções que partem de histórias específicas e adquirem um novo viés narrativo como A Última Tentação de Cristo e Êxodo: Reis e Deuses.

Dirigido e escrito por Jaco Van Dormael, O Novíssimo Testamento parte da bases dos evangelhos rumo a uma trama de realismo fantástico para apresentar um Deus burocrático, que sente cansaço com sua criação, tratando sua própria família de maneira oposta aos ensinamentos propagados em suas escrituras. Rabugento e mal humorado, o criador permanece cuidando de seu universo a partir de um computador. Morando em algum local da Bélgica com sua esposa e a filha de dez anos, o patriarca sente o fardo de anos e anos executando o mesmo trabalho. Cansada da índole do pai, a filha foge de casa para promover um novo testamento. Antes de ir embora, contudo, a garota invade o computador do pai e envia a todos os habitantes da Terra a informação sobre a data de suas mortes.

A trama é dividida em partes simbolizando os livros bíblicos, inicialmente, apresentando a fuga da garota para a busca de discípulos para compor o novíssimo testamento do título. A vertente do humor improvável, destacando a figura ranzinza do pai, estabelece uma crítica contra a tradicional visão do criador. A paródia aproxima Deus dos homens no tédio do cotidiano e lhe dá contornos malévolos ao decidir viver rindo de nossa miséria. Todos os problemas humanos, incluindo decepções simples, como o pão caindo com o lado da manteiga no chão, seriam leis divinas feitas sob abuso de autoridade para rir da desgraça humana diária. Atos de um homem egoísta à procura de diversão e vingança em não ser louvado como deveria, sendo a morte um dos poucos triunfos do criador, um feito diminuído pela filha ao divulgar as datas da morte de todos pelo globo.

Longe de casa, a garota procura discípulos para compor o novo testamento, e cada capítulo destas personagens apresenta-as de maneira distinta daquela apresentada em cena. São homens caracterizados por extremos, vivendo à margem de si mesmos. Ainda que a história as mostre como personagens limítrofe e quase imorais, sua índole não parece nociva. A revelação das mortes propagadas pela filha carrega a mensagem da finitude, um ato que possibilitaria aos humanos viverem com mais coerência os desejos e sonhos, visto que não mais havia o medo da morte.

Conforme agrega discípulos com histórias incomuns, o roteiro perde equilíbrio sob um verniz extremamente metafórico. Falta uma base realista para que o fantástico seja desenvolvido com precisão. Os  símbolos surgem cena após cena e se amontoam sem significados aparente, beirando um vazio interpretativo. Aspecto que faz o público considerar uma obra aberta à reflexão, sem dúvida, uma vertente possível se cada símbolo ou metáfora corresponder a um significado aparente. Ao exceder-se nessas camadas, a história perde sua força pelo exagerado.

Van Dormael demonstra força ao desenvolver sua paródia mas a leva a um momento insustentável, incapaz de lidar com o simbolismo de seu próprio roteiro, ainda que o argumento seja interessante como base. A visão paródica talvez seja o motivo pelo qual a produção tenha conquistado indicações em diversas premiações europeias. Ainda assim, insatisfatória como filme.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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