Cinema

[Crítica] O Ornitólogo

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O Ornitólogo apresenta o homem em contato direto com a linha entre o mundo físico e seus significados culturais. Os seres humanos interagindo com o mais primitivo da maneira que percebem e interpretam o mundo. E nesse encontro, nesse limite, há experimentações incentivadas por situações e abordagens meditativas sobre aquilo que nos cerca, tanto de forma corporal quanto mental.

Escrito e dirigido por João Pedro Rodrigues, O Ornitólogo acompanha Fernando (Paul Hamy), um ornitólogo que está em expedição pela região de Portugal e Espanha, até que acidentes nas correntezas o incapacitam e o fazem se perder na floresta, onde terá início sua jornada de auto-descobrimento. A natureza o prende e molda sua realidade com características fantásticas; pelos interiores das matas há cristãs chinesas que objetivam o Caminho de Santiago de Compostela, os pássaros e espíritos que observam quem deveria observar, até ritualistas noturnos e amazonas contemporâneas.

De um extremo realismo fantástico e densamente simbólico, o longa prende em seu ritmo e atmosfera reflexivos, contemplativos, os telespectadores que se permitirem. A utilização de técnicas documentais reafirma a naturalidade do que se vê em tela, independentemente do quão absurdo possa ser. Em sincronia com isso estão os atores; Paul Hamy faz um Fernando perdido, mesmo que apreensivo para chegar aonde não sabe onde nem como ir, e os mesmos elogios se estendem a Xelo Cagiao e suas expressividades para além de qualquer palavra.

O filme, tal como a natureza dominando prédios esquecidos, cresce ao redor de uma discussão sem respostas diretas sobre o homem em confronto com sexualidade e religião, aspectos geralmente contraditórios, mas que aqui se tornam harmônicos e complementares. Entre tantas formas de expressão ritualísticas é possível perceber a equiparação entre se fantasiar e dançar ao redor de uma fogueira, uma reza entre estátuas esquecidas e um ato sexual a beira do rio. É na natureza, onde já não nos vemos mais, que o ambiente adverso se mescla às construções culturais humanas, sejam elas físicas ou do próprio ser, e conferem uma transmutação tal como a dos pássaros que trocam suas penas, mas que continuarão a voar e a viver após a despedida dos antigos Eus.

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Texto de autoria de Leonardo Amaral.

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