Cinema

Crítica | O Príncipe do Egito

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O mito de Moisés talvez seja o mais famoso entre os contos bíblicos,  fora os evangelhos que narram a jornada de Jesus Cristo, e isso obviamente não é à toa, dadas as semelhanças entre as duas  historias. Em 1998, a Dreamworks e os diretores Brenda Chapman, Simon Wells e Steve Hickner conduziram uma adaptação do livro do Êxodo, bem ao estilo dos musicais da Disney, com um apuro visual absurdo que mistura animação em 2d super detalhada ao mostrar os personagens humanos, com outras tantos em 3d para mostrar os cenários e os monumentos da civilização super antiga.

Já nos primeiros instantes, onde Joquebede e os seus pequenos filhos Arão e Miriam tem de se despedir do recém nascido, são apresentadas duas músicas belíssimas, uma clamando pela liberdade do povo que tem as costas marcadas pela chibata dos escravagistas egípcios, e outra de lamento pelo destino possivelmente trágico do menino, que era perseguido pelo faraó, por conta de uma profecia antiga, que nesta versão é bem diferente, atribuindo a morte das crianças não a crença do nascimento de um libertador, mas sim por conta de um controle de natalidade dos escravos.

A pequena cesta que carrega o futuro profeta reúne no pequeno trajeto até a sua mãe adotiva um resumo do livro do Gênesis, não só na obvia referencia a embarcação que Noé fez para salvar a humanidade (a cesta lembra uma pequena arca) e a fauna do fim do mundo pelo dilúvio, como uma breve demonstração de animais na parte rasa do Rio Nilo, animais que certamente não estariam todos por lá, mas que compõem uma belíssima licença poética.

Além destes momentos, há também uma corrida de bigas, onde os diretores mostram como o alto orçamento da produção foi bem empregado, não só a grandiosidade do império e o óbvio apontamento a um momento clássico de Ben-Hur, mas também serve para atalhar a impulsividade dos príncipes egípcios, Moisés e Ramsés, além de mostrar os dois como iguais, como irmãos que apesar de não partilharem do mesmo futuro, tem uma relação de intimidade e interdependência, bem diferente da rivalidade ciumenta vista no início do clássico de Cecil B. Demille, Os Dez Mandamentos.

A escolha narrativa por mostrar um Moisés humano, provocador e imaturo é inteligente, pois na própria Bíblia se nota que ele era genioso e complicado, sendo dificilmente um jovem sisudo como normalmente  se atribui a ele, assim como colocar Ramsés como alguém instável, sempre pilhado e receoso com o fato de não ter todos os predicados para levar sua civilização ao apogeu. Dois homens, criados juntos, com destinos diferentes e igualmente complexos, mesmo com pouco tempo de tela para cada um.

Lógico que em se tratando de uma animação cantada, há algumas desnecessárias lições morais e conveniências – o primeiro encontro do protagonista com Zípora, por exemplo – mas em se tratando de uma historia bíblica, e os outros filmes desenhados e séries do gênero, essa usa pouco este artifício. O que realmente pode incomodar plateias mais velhas é a velocidade super rápida com que os fatos ocorrem. As músicas pontuam bem os momentos de transição e evolução, do mimado e inconsequente príncipe rumo a se tornar o pastor das ovelhas de um povo carente.

O filme se divide basicamente em três partes, a juventude do herói no seu antigo lar, a fase no deserto onde encontraria seu chamado e vocação e saída do povo do estado servil. O estado de revolta e amadurecimento de Moisés é muitíssimo bem pontuado, não só no sonho dele sobre suas origens, em uma animação com imagens de hieróglifos que em sua composição beiram o genial, como também em sua transformação para o completo oposto de seu irmão de criação, mas não sem antes de partir o coração de seu fraterno e amigo, primeiro por se sentir enganado ao longo dos anos por não saber de onde veio, depois, por entender de fato o quão injusto era a condição de opressão do povo de seus pais, e que em breve, seria o seu também. Como as animações normalmente miram o público infantil, apelar para a questão de familiaridade é uma saída.

Por mais que o segundo terço não tenha tantos momentos épicas – mesmo que a cena da Sarça Ardente ocorra neste tomo – a condução do agora pastor de ovelhas para o Egito é cuidadosamente planejada para causar encanto em quem assiste, desde o confronto entre os sacerdotes Hotep e Huy, até as conversas com Ramsés, que em sua vida adulta, repete os erros e a simbologia visual de seu pai, Seth, inclusive com a repetição da posição das imagens dele como tirano junto a estátua dos soberanos da dinastia, com novos signos e discussões, mostrando ele como alguém inseguro, tentando disfarçar essa "falha" aumentando os feitos de seu pai, expandindo a grandiosidade dos monumentos em sua homenagem no esforço de compensação.

O filme peca um pouco em relação as transições temporais, em alguns pontos fica confuso sobre a quantidade de anos entre os momentos, mas outros tópicos importantes são bem mostrados, mostrando que o cronos é algo subalterno ante  a questão do Divino e o discurso de emancipação dos povo. A questão da onipotência divina de Javeh é muito bem exemplificada, mesmo em seus detalhes. Quando Moisés transforma as águas de um rio em sangue, o espaço onde ele fica, não é manchado, em uma pequena amostra de que as pragas e pestilências não ocorreriam de maneira alguma com o povo escolhido.

Essa face intervencionista de Deus está presente o tempo inteiro no livro sagrado dos judeus e cristãos, no entanto, ela é ignorado por boa parte dos fiéis e dos porta vozes da fé, o que é uma pena. Não é preciso ser especialista em teologia para perceber que o caráter do Criador segundo as sagradas escrituras citadas sempre foi a favor do povo oprimido, e esse deveria ser o maior dos símbolos. Embora a Bíblica seja composta por 66 livros, essa mensagem corta a maioria de suas passagens, mesmo as controversas e anacrônicas, e neste ponto, O Príncipe do Egito acerta em demasiado, pois mesmo que a intervenção do Deus seja enérgica, há benevolência em suas ações e intenções, e não busca por glória ou egoísmo. O criador se preocupa com a criatura, com o seu povo, embora ele tenha um lado muito bem estabelecido.

A questão do Anjo da Morte repetindo a matança dos bebês judeus do inicio do filme é uma boa demonstração de que a vida cíclica, e claro, é uma resultante do conceito da lei da Semeadura, onde os egípcios colhem a mesma desventura que plantaram anos atrás. Os momentos finais são épicos e dignos, semelhantes ao último ato de uma ópera. Os milagres divinos são grandiosos, postos em tela de maneira tão grandiosa que parecem de fato reais, fortificando a idéia de uma das ultimas canções entoadas pelos imigrantes.

A diferença entre Moisés e Ramsés se dá em acreditar quem eles são. Enquanto o filho adotivo se julga inferior, inseguro e se torna condutor da mensagem do Criador, o outro segue arrogante, se achando o dono da verdade e poderoso para com suas mãos humanas parar o fluxo da água do Mar Vermelho enquanto ele retorna ao seu lugar. A ruína de Ramsés se dá exatamente onde mais dói, não fisicamente mas sim no ego, com ele sobrevivendo para perceber seu reinado e o legado de seu pai entrarem em decadência, tudo porque ele não quis ceder aos seus caprichos. Essa talvez seja a mais poética versão dos fatos ocorrido no livro do Exodo, e graças ao trabalho hercúleo tanto das composições de Stephen Schwartz (adaptadas magistralmente para o português na versão brasileira), e ao alto custo da produção, conseguiram traduzir de maneira certeira uma historia bonita e inspiradora da mitologia cristã, mesmo com a pressa e com a supressão de muitos pontos polêmicos da biografia do que seria o personagem histórico de Moisés.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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