Cinema

[Crítica] Os Irmãos Lobo

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the-wolfpackMisto de documentário com ficção, Os Irmãos Lobo é um experimento de Crystal Moselle, que investiga a rotina de uma família de imigrantes peruanos Angulo, que moram em Nova York e que só têm contato com o mundo externo através de fitas de vídeo e meios de comunicação. A encenação de Cães de Aluguel revela uma paixão cinéfila intensa da parte dos patriarcas, o mais desenvolto deles, e tal predileção quase esconde o isolamento pelo qual eles passam, sem acesso a quaisquer outras pessoas que não as escolhidas por seus parentes.

Os Bons Companheiros, Pulp Fiction e a trilogia Batman de Christopher Nolan são válvulas de escape para a prisão domiciliar que lhes é imposta. A imagem da janela da metrópole serve de alento para os descendentes sul-americanos, em um total de sete que habitam um microuniverso ligado a sua religião, a sociedade hare krishna.

O intuito de Moselle é demonstrar uma parcela do pensamento de um fundamentalista religioso, flagrando parte do discurso que faz bastante sentido tanto dentro de sua lógica própria quanto por quem é de fora desse contexto. Nas falas da mãe de família predominam os malefícios de uma socialização forçada, incluindo locais comuns como a escola, onde determinados valores tidos como indesejáveis são repassados, especialmente pelo convívio com seres da mesma idade das crianças e adolescentes.

As fitas antigas, gravadas pelos rapazes, revelam um intenso consumo de artes pop contemporâneas, o que faz em um primeiro momento acreditar que os Angulo conseguem driblar mesmo a falta de convivência com outros entes em sua formação de gosto e de repertório. Por mais que o caráter da fita busque ser o mais isento possível, não há como analisar a situação do clã sob um prisma que não englobe um estranhamento pela alienação da senhora Angulo e de seus filhos, especialmente pelo claro e manifesto desejo dos rapazes em conviver com o externo, podendo desfrutar de atos simples, como o de ir a praia, fato registrado pelas câmeras.

Tal manifesto ganha contornos reais quando o mais velho deles, Mukunda, decide viver fora do cercado de sua mãe, começando a usufruir dos prazeres externos. No entanto, as mudanças não são vistas muito distantes da realidade que lhe foi passada ano após ano, ao contrário, sua mentalidade tende a repetir todos os preceitos que lhe foram passados ano após ano, o que não resulta em uma conclusão desfavorável à criação pela mãe da família. A discussão proposta por Moselle, apesar de não acertar sempre e de cair em redundância em alguns pontos, inclui a questão da “escolha” por uma alienação específica. É na universalidade de julgamentos que reside o maior acerto de Os Irmãos Lobo.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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