Cinema

Crítica | Por Um Fio

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Em 2002, Joel Schumacher apelava para Stuey Shephard, um publicitário americano vivido por Colin Farrell, para exemplificar uma parcela da sociedade americana, além de desnudar a vida de um sujeito refém das aparências.

Farrell era uma promessa em Hollywood, estava em início de carreira e com potencial para se tornar uma estrela, fato que obviamente ocorreu muito graças a Tigerland, filme anterior que trabalhou com o cineasta. Seu personagem se mete em um evento bastante simples, mas complexo do ponto de vista da narrativa cinematográfica. Durante o dia seu personagem é bastante atarefado, contudo sua rotina muda bruscamente no momento de descanso, ao fazer uso de uma cabine telefônica para ligar para sua amante. Após o término da chamada, o telefone toca e ele atende. O filme se desenvolve ao redor dessa ligação, com sua vida dependendo disso.

Schumacher comanda bem todo o mise-en-scène. Stu, ao ligar para Pam (Katie Holmes), retira sua aliança como se negasse ali o matrimônio que contraiu tempos atrás com Kelly (Radha Mitchell). O desespero que ele expressa e a curiosidade o fazem ficar preso à cabine, esperando por mais informações vindas do desconhecido com quem fala, que aos poucos deixa claro conhecer todos os detalhes a respeito de suas intimidades e segredos mais profundos. A edição ajuda no senso de urgência, e aos poucos a sensação incômoda e claustrofóbica vinda do fato de se passar nesta cabine telefônica.

Há na mentalidade do vilão, criado pelo roteirista Larry Cohen, semelhanças com o serial killer Jigsaw, da franquia Jogos Mortais. Ambos agem de forma a colocar a vítima em estado de choque, sem liberdade de escolha, onde a alternativa que cabe é simplesmente impraticável e dolorosa. A diferença básica entre a motivação dos dois personagens, é que em Por Um Fio o discurso se volta contra mentiras e falsidades que ajudam a compor quem é o homem moderno, enquanto Jigsaw é meramente um replicador de moralidade barata.

Apesar de toda a proposta do filme ser simples, a química entregue pelos personagens é bastante intensa. Só há uma crença de que todo aquele drama é real graças a participação de cada um deles. Schumacher ainda aproveita para abusar dos closes, registrando todo o desespero, sadismo e urgência de cada um.

O humor presente nas conversas entre o antagonista e Stuey tem um tom ácido, é praticamente impossível não achar todo esse teatro errático sensacional. A tentativa do publicitário, que se julga acima de tudo e mais esperto que todos, de descobrir a motivação do sujeito que liga para ele só não é mais torta e inútil do que a arrogância do vilão em pedir a perfeição inalcançável ao protagonista. No entanto, a prepotência do personagem é crível, já que boa parte das pessoas que convivem em sociedade são reféns do consumismo e tem necessidade de ter uma aparência de sucesso maior do que seus próprios êxitos.

Apesar do desfecho ser um bocado oportunista, Schumacher traz à luz um filme repleto de suspense, e que em seu final, retoma o argumento inicial, sobre a aldeia global estar toda conectada. Embora essa pecha pareça alarmista, a mensagem não é de toda errada, e ainda abre precedente para que mais casos como esse ocorram em  um futuro próximo.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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