Cinema

[Crítica] Sob o Domínio do Mal

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Sob o Dominio do Mal - poster

O prelúdio do drama de John Frankheimer começa semelhante a uma fita de guerra, mostrando um pelotão do exército se organizando taticamente em um combate na guerra da Coreia. O grupo de homens é traído e levado por seus opositores para sofrer maus agouros. A primeira tomada de Sob Domínio do Mal após os créditos mostra Raymond Shaw (Laurence Harvey) chegando ao solo americano como herói de guerra, tratando as primeiras cenas como um despiste, o que evidentemente é um engano, já que todo o plot explorado no longa é intimamente ligado à sua captura e a de seus colegas.

Como parte da construção comum ao cinema da época, há uma narração incessante introduzindo cada um dos passos do recém-chegado soldado. O artifício não está lá à toa, pois serve de símbolo para a dificuldade mental do veterano de guerra em conduzir sua própria consciência. O roteiro explora em paralelo a situação de Benett Marco (Frank Sinatra) e de outro soldado, que, assim como Shaw, também havia sido capturado, tendo em sua intimidade uma série de terrores noturnos profundos, frutos do trauma de suas capturas.

O roteiro de Frankenheimer, George Axelrod e Richard Condon serve de crítica ao esforço de guerra, mostrando-o como exercício inútil, fútil e de consequências terríveis para os alistados. A possibilidade que só seria desbaratada próxima do final dá mostras de sérios problemas psiquiátricos por parte dos torturados, suscitando questões sérias sobre controle mental imputado pelos temíveis soviéticos.

O argumento, que começa com um potencial absurdo, aos poucos se mostra pueril e maniqueísta, resultando em uma trama política boba, que somente reproduz a paranoia comum da época. O aspecto paupérrimo é pontuado por uma vergonhosa cena, em que Sinatra se presta a lutar karatê, enquanto está sem o controle de suas próprias faculdades mentais.

Além do comprometimento ideológico bobo, o suspense dentro do filme é bem estabelecido. As ações em que os ex-agentes estão controlados por seus antigos inimigos são executadas de modo frio, sem trilha ou qualquer outro som que não seja os de passos, tiros e das quedas dos corpos. Nas cenas em que Shaw está “possuído” o silêncio predomina, utilizando o som como elemento narrativo do domínio escuso que ocorre com a mente do homem valoroso.

A definição do longa é igualmente assustadora, em especial para as plateias mais incautas e paranoicas, já que os atos condenáveis ocorrem em demasia, em um local público, pervertendo a figura do herói paladino, tornando-o o arquétipo literal da sombra e revertendo as expectativas de proteção e predação por parte dos servidores da nação. Sob o Domínio do Mal sobrevive aos problemáticos eventos piegas, mantendo alta a tensão que pontua os momentos finais, tencionando produzir na mente de seu público uma reflexão sobre a postura agressiva em relação ao globo e às graves consequências resultantes no elo mais fraco da corrente.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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