Cinema

[Crítica] Superman IV: Em Busca da Paz

Compartilhar

Superman IV 1

Com a franquia já dada como morta para os Salkind – ao menos em relação aos filmes com o azulão – sobrou para Golan-Globus e seu Cannon Group produzir Superman IV: Em Busca da Paz, dirigido pelo não menos genial Sidney J. Furie, o mesmo que criou a exagerada imitação de Top Gun vista em Águia de Aço. A introdução imita as clássicas, com Alexander Courage tocando ao invés de John Williams.

A pérola já tem todo seu caráter explicitado logo no início, com o herói de capa voando livremente pelo espaço sideral, salvando uma expedição estrangeira ligada aos soviéticos, que seria o embrião da busca incessante pelo fim dos conflitos provenientes da Guerra Fria. É difícil escolher qual o fator mais tosco, se é a cena de voo no espaço, recortada e usada no mesmo take a todo momento; a demonstração de força e poder da rebatida na bola de baseball, que extrapola a atmosfera terrestre; ou a fuga de Lex Luthor (Gene Hackman, cada vez mais cansado) através de seu pupilo Lenny (Jon Cryer, de Two and a Half Man), em uma cena mais forçada que todo o plot pueril deste capítulo.

Nenhum dos eventos sugeridos em Superman III é levado a sério por parte do texto de Christopher Reeve, Lawrence Konner e Mark Rosenthal. A dupla que adapta a história do astro principal conseguiria, em um futuro próximo, produzir um bom filme - Jornada nas Estrelas 6: A Terra Desconhecida - e participações em seriados adultos da HBO. Mas nesse caso, não conseguem salvar da mediocridade a premissa boba de vitória da crise via desarmamento, contando com a parte que deveria ser mais séria como um evento muito infantil.

Mesmo os envolvimentos pseudo amorosos de Clark passam por um escopo extremamente irreal, sendo o pacato e matuto repórter alvo das investidas da bela e rica Lacy Warfield (Mariel Hemingway), que além de ter posse sobre o Planeta Diário, tenciona devorar seus funcionários também. O quadro se agrava quando ele passa a sofrer com os ciúmes de Lois Lane (Margot Kidder), o que contradiz todo o seu arquétipo de sujeito aparentemente desinteressante.

Superman IV 2

Quando Clark volta à sua cidade natal, descobre mais mensagens ocultas em sua nave, fator que é até justificado no primeiro filme, mas que ainda soa bobo diante da missão que lhe é cabida. Boba também é a demonstração de Kent, para Lois, trocando suas vestes para a do herói com a jornalista seguindo em sua empreitada de negar a real identidade do homem poderoso. A caminhada rumo à sede das Nações Unidas é igualmente patética, pela irrealidade e por ser o completo avesso da cartilha da Cannon, que normalmente fazia dos plots dos seus filmes folhetins pró judeus e anti-árabes, fomentando a guerra. A confissão de mea culpa dificilmente soaria mais vexatória do que neste.

A junção de todas as bombas, próximo do lado externo do planeta, impressiona pelo caráter paupérrimo tanto da cinematografia quanto a ideia de jogar todo o armamento no sol, o que certamente atrapalharia um pouco a rotina do sistema solar. Superman IV é levado tão a sério que Hackman não se deu o trabalho sequer de raspar a cabeça. Seu plano envolve lançar uma ogiva no sol para que de lá saia uma versão clonada do Super Homem, uma fera loira, avermelhada, com unhas semelhantes a garras de harpia na cor grafite. O Homem Nuclear é vivido por Mark Pillow, mas tem a voz e grunhidos de Hackman, em mais uma das barbadas jocosas da produção, novamente tencionando aludir a um vilão clássico, dessa vez tomando os elementos do Bizzaro como base.

Há muitas cenas em que se reinventa a um modo mais barato os momentos do primeiro longa, como o voo de Super e Lois, e a chamada de Lex ser escutada somente pela super audição do kriptoniano, entre outras baboseiras. O clímax da batalha mundial entre paladino e bandido envolve viagens a Itália e o uso da Estátua da Liberdade como arma, em outra tentativa fajuta de homenagear a terceira parte da saga.

Superman IV: Em Busca da Paz consegue aludir a todos os defeitos possíveis em uma produção do gênero. Consome muito tempo com a construção de um herói maniqueísta e carregado de bom mocismo, com um rival físico risível, pior até do que a versão cortada do longa, ainda mais jocosa e que combinava ainda mais com o tom de auto parodia que a saga acabou por mostrar nessa nova encarnação.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
Veja mais posts do Filipe
Compartilhar