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Crítica | Tristeza e Alegria

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Tristeza e Alegria (sorg-og-glde)

O cinema dinamarquês vem crescendo cada dia mais, e se mostra mais eficiente, se tornando um dos lugares mais rentáveis em talento narrativo e beleza estética da Europa, de onde vieram nomes como Lars Von Trier e Gabriel Axel, mas um dos mais talentosos, Nils Malmros (A Árvore do Conhecimento, Arthus By Night), se manteve desconhecido fora da Dinamarca.

O mundo e a cabeça das crianças e dos adolescentes e os trabalhos de um cineasta são dois dos principais motores do cinema de Malmros, que segue a linha de outros nórdicos e não poupa o público das tragédias que encena. Seu estilo, preciso e elegante, se faz presente em Tristeza e Alegria, filme autobiográfico que recria a relação do diretor com sua mulher, uma professora maníaco-depressiva cuja saúde mental vai se agravando com o passar do tempo.

Trazendo Jakob Cedergren como alter ego de Malmros, o filme nos apresenta o diretor Johanes, que teve sua filha assassinada pela esposa Signe (Helle Fagralid) em um surto psicótico agudo. Os sentimentos do cineasta não são externados em um acesso de fúria e revolta ou em um surto depressivo. Fugindo do imaginário, ele se vê motivado a defender a esposa, e todos os que são próximos a ela se dispõem a ajudá-la em seu processo de recuperação.

Nesse ponto, o filme é dividido em duas linhas narrativas: enquanto voltamos ao início do relacionamento dos dois, vendo como se conheceram, o namoro, o casamento, os transtornos psicológicos cada vez mais intensos de Signe, as obsessões de Johaness e a tensão sexual criada entre ele e Else (Ida Dwinger), protagonista de seu último filme, vemos as sessões de terapia do diretor com seu psicanalista (Nicolas Bro).

A imediata busca por suspeitos e culpados dos acontecimentos que se desenrolam, monta uma armadilha para o espectador. Como o próprio Malmros diz, o filme não é uma condenação, e sim uma declaração. É tão sincero quanto pode, deixando todas as fraquezas e os erros e as doenças de seus personagens à mostra, e que mantém sua imparcialidade, sem isentar ou culpar ninguém em específico. “Nós somos os culpados por não ter cuidado de você”, diz Johaness.

Mesmo sendo um relato tão pessoal, o filme toma os traços de uma metáfora sobre a vida, auxiliado pelo elenco bem afinado e encaminhado na construção de um drama “sério”, uma trilha antológica, clássica e pontual, e uma fotografia propositalmente afetada pelas estações, cujo o clima nos passa as sensações dos personagens.

O núcleo que o filme carrega sobre si é o que faz da obra tão poderosa e que se entrega a inúmeras discussões, como o suposto impacto negativo de Johaness na vida de Signe, sendo culpado indireto pela morte da filha; a reintegração de Signe à sociedade, através de pessoas próximas; e o que Johaness sentia pela esposa antes da tragédia acontecer.

Afirmando ser Tristeza e Alegria seu último longa, Malmros exorciza seus últimos demônios e fecha seu ciclo, deixando um testamento que, mesmo com seus problemas, possui uma força impossível de ser ignorada.

Texto de autoria de Matheus Mota.

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