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Os Bastidores de Os Intocáveis

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A infeliz morte de Sir Sean Connery, já do alto de seus 90 anos reacendeu nos fãs do ator (e amantes do cinema em geral) a vontade de rever e entender a filmografia do ator. Certamente entre esses, um dos mais vistos e analisados foi Os Intocáveis, filme clássico de 1987 de Brian De Palma que refilmou o seriado homônimo dos anos cinquenta, onde um grupo de elite na velha Chicago que desmantelaria o cartel de Al Capone. Para entender o filme e o fenômeno, é preciso mergulhar nos materiais adicionais, nos bastidores e em como foi feito esse que é junto a trilogia O Poderoso Chefão e as obras de gangster de Martin Scorsese, é parte integrante da elite das obras sobre máfia.

Em documentário de making off, De Palma aborda um pouco do insucesso financeiro de seus últimos dois filmes Quem tudo quer, Tudo Pode e Duble de Corpo, então, quando o roteiro de David Mamet via Paramount caiu nas suas mãos, ele resolveu tentar desenvolver.  Mamet se baseou na série homônima, chamada aqui também de Os Intocáveis, iniciada em 1959. De Palma não gostava da série, e ele só aceitou participar após Art Linson garantir que ele poderia fazer o que quisesse, e basicamente o filme aborda o primeiro capítulo do programa, que consiste na prisão de Al Capone.

Mamet era um grande nome na época, um escritor promissor, havia escrito Jogo de Emoções e anos depois faria Mera Coincidência e Hannibal, e ele foi a ponta de lança do projeto. Com o diretor escolhido, foi decidido reduzir o número de Intocáveis para quatro (eram oito, a contar com Eliot Ness), alguns dos personagens foram até desmembrados, divididos em dois ou mais como o veterano ex-fora da lei Joe Fuselli, que reúne em si elementos tanto de Malone como de Stone/Pettri, seja pelo fato de ter origem italiana como o personagem de Andy Garcia, ou de ser uma espécie de mentor que rapidamente perece, como o personagem de Connery.

Kevin Costner nem sempre foi a primeira opção para o papel de herói, um dos nomes pensados foi Mel Gibson, que não pôde por questões de agenda. O intuito do estúdio era encontrar um rosto conhecido, como era também o desejo de que Michael Corleone em O Poderoso Chefão fosse alguém mais experimentado que Al Pacino, e em ambos os casos, a escolha dos diretores foi correta, Costner consegue transparecer uma mistura de ingenuidade da luta pelo bem a qualquer custo, com a malandragem de quem aprende a agir nas ruas.

Já  Charle Martin Smith foi escolhido por conta de seu papel em Loucuras de Verão, de George Lucas. Seu Oscar Wallace é baseado num sujeito real, Frank Wilson, que também era contador, mas ficava longe da ação, já Garcia conseguiu por conta de Morrer Mil Vezes de Hal Ashby, onde faz um vilão, ele fez teste para o Vitti (de Billy Drago), e acabou pegando Stone. Para De Palma e os outros produtores, Connery era a única pessoa que caberia na função de mentor e conhecedor das ruas de Chicago que era o policial Malone, e a dedicação dele foi total, inclusive na sua cena de morte, que foi a primeira em que ele teve que lidar com sangue falso.

Limitações orçamentarias fizeram a produção pensar em Bob Hoskins para o papel do vilão, até De Palma já havia se conformado, de certa forma. A insistência em Robert De Niro como alvo primário ocorreu mesmo com o alto custo de seu salário e com a problemática dele só ter duas semanas para gravar, nos seus tempos livre. Foi De Niro que viabilizou o visual de seu personagem, usando a mesma equipe que tratou do envelhecimento de seu personagem em Era Uma Vez na América de Sergio Leone. As vezes, De Palma reclamava que ele não expressava muitas emoções, daí De Niro afirmava que aquilo era o ideal e mais condizente com Capone, e insistia nisso. As sutilezas só eram percebidas na pós, o ator claramente tinha uma intimidade com a câmera, e nem mesmo um diretor experimentado não percebeu isso em totalidade.

Stephen H. Burum, responsável pela fotografia resolver filmar em Cinemascope. A decisão por esse artifício se deu após ele pesquisar muito sobre a época e sobre como a cultura dos anos quarenta era traduzida ao público. Foi dele a ideia de repetir muito os carros nas ruas a fim de expressar em tela uma tendência de consumo da época. Houve cuidado para deixar as estradas vazias, a fim de refletir a quantidade menos de gente nas ruas na época da Lei Seca, e foi ele também que negociou o desligamento das luzes de grandes prédios atrás da ponte de Chicago, numa cena noturna, pois se estivessem ligados, demonstrariam que o cenário não era fiel a 1930. Outra grande sacada dele foi o uso da lente angular na cena da igreja, onde as mãos de Connery e Costner parecem maiores, aumentando o simbolismo de que são seus atos que tornam Chicago em um lugar mais limpo e justo, ao menos em teoria, e não havia lugar melhor para isso do que utilizar uma igreja como cenário.

Sobre a cena da morte do contador Wallace, Martin Smith fala que De Palma optou por não colocar muito sangue, em respeito a figura frágil e certinha do personagem, exageros não seriam bem vindos, mesmo que o diretor fosse conhecido por usar gore em seus filmes, aquele não era um momento certo.

A composição visual em torno de Capone é precisa e quase divinal, a escolha por sua cena de abertura ser filmada de cima com pessoas o servindo, fazendo as unhas, barbeando ou meramente entrevistando-o já dá noção de sua imponência e onipotência, ele não era o prefeito de Chicago e sim o Deus da cidade, tanto que não se escondiam os depósitos de bebida Malone as acha rápido, o que faltava era estrutura para peita-lo. Havia uma cena cortada, para o final, onde repetira a cena do inicio, com Capone sendo barbeado, e quando saísse do Plano Detalhe, se perceberia ele preso, mas foi retirada do filme na última hora, pois a escolha no final, foi a de valorizar os policiais, os reais intocáveis, os que tiveram coragem de quebrar a banca e que de certa forma, conseguiram.

Nas duas versões televisivas de Os Intocáveis, se abria possibilidade para mais aventuras depois que Capone cai, mas o filme praticamente reduziu essa chance a zero no cinema, mas mesmo essa falta de sentido condiz com o clima de fantasia policial imposto, sem falar que sem o Malone de Connery, tudo seria bem mais melancólico e depressivo, e é fato que o cinema hollywoodiano tem dificuldade em não transformar sucessos em franquias, e ainda bem que este não teve novas sequencias, e é uma pena que De Palma pôde fazer poucos sucessos após este, se resumindo basicamente a Pagamento Final, Pecados de Guerra e Olhos de Serpente entre os indiscutivelmente elogiados e outros tantos produtos malfadados, ao menos esse reúne talentos do diretor, de De Niro, Connery e Costner, em uma sinergia poucas vezes vistas em obras tão grandiosas.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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