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Resenha | A Arte da Guerra

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A primeira experiência sensorial com esta graphic novel agrada bastante. Edição caprichosa, papel laminado de qualidade, letras garrafais remetendo ao famoso livro e cores contrastando em uma bela capa que clama por ser conferida.

A princípio pensei que esta graphic novel era mais uma das adaptações de clássicos da literatura transposto para uma nova mídia. Não é o caso. Logo percebe-se que ele se define como uma obra baseada no livro milenar de Sun Tzu, mas com uma vertente própria, algo como uma história temática similar. Considerei a proposta ainda mais interessante do que pensei inicialmente.

Acompanhamos a trajetória de Kelly Roman (homônimo ao autor), recém libertado por ter sido responsável por um acidente nas Forças Armadas. Kelly descobre que seu irmão mais novo, bem sucedido e que trabalhava para uma organização poderosíssima, está morto. O líder de tal conglomerado se chama... Sun Tzu. Kelly pretende descobrir quem está por trás da morte do irmão e não vê outra maneira de conseguir isso, e se infiltra na grande corporação para trilhar a sua redenção através da vingança.

A perspectiva narrativa é a de que o próprio Kelly está escrevendo e nos relatando a história, e acrescentando citações de Sun Tzu ao longo de sua própria história. Essa é uma das pretensões da proposta inicial que causa tanta curiosidade mas que quando executada, carece de impacto. A questão é que as frases não necessariamente casam tão bem assim, seja com a narrativa, seja com a arte. Além de que a impressão que fica é que a narrativa principal está o tempo todo sendo interrompida por uma citação que pouco (em muitos casos nada) acrescenta ao conceito ali descrito/desenhado. O excesso de citações apenas transcritas ao longo da HQ são frias e parecem estar quase que a esmo ali, soltas e sem muito propósito.

Chega-se ao ponto de questionar seriamente esta escolha. Foi ela executada para dar um peso intelectual maior à obra? Ou foi uma escolha mais comercial? Os elogios de capa do produtor de Kick Ass citando a HQ como uma das melhores graphic novels já lidas por ele, soam apenas como embuste após a leitura. A história em si e a estrutura narrativa nada remetem à obra de Sun Tzu, seja no quesito militar ou no filosófico e conceitual. O ponto é que não basta ter o mesmo nome, uma história violenta e um vilão homônimo ao estrategista milenar para se ter algo que realmente englobe tal conceito.

A arte é realmente impressionante e algumas páginas são belíssimas, mas sem uma boa história para acompanha-las, elas nã0 salvam esta HQ. A violência gráfica é extrema, mas quase nunca visceral, o roteiro não acompanha o extremismo da arte e quase sempre o peso emocional de um, não se integra ao outro, o que dá a impressão de gratuidade na maioria das cenas.

A sensação que fica é de que tentou-se reunir todos os elementos necessários para uma obra épica, de qualidade artística e peso literário. A conclusão é de que fomos apresentados a um pseudo intelectualismo brutal e que quase tudo nesta obra deixa muito a desejar.

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Texto de autoria de Amilton Brandão.

Amilton Brandão

Curioso consumidor das mais variadas manifestações artísticas e culturais humanas. Guiado pela certeza de que está nesse mundo para absorver, processar e disseminar o que nos eleva para além de nós mesmos.
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