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Resenha | Desengano

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Que me perdoem os saudosistas, mas atualmente se vive um dos melhores momentos para se colecionar quadrinhos no Brasil, não só pelo acesso, que com a internet e outros meios de comunicação facilitou bastante o acesso, porém a produção e o espaço para quadrinistas brasileiros tem aumentado (com isso não quero dizer que é ideal, a maioria destes artistas ainda não vivem de quadrinhos, precisam de outro emprego e ocupações, entretanto se comparado com outras épocas já se avançou muito) o que nos faz conhecer novas formas abordagens e novos artistas.

Entre eles gostaria de destacar Camilo Solano e sua forma prosaica de contar histórias: não se trata de contos épicos ou grandes narrativas de heróis impossíveis, o que se vê é valorização do cotidiano e como esse mundo é extramente rico e capaz de nos mostrar diferentes interpretações e proporcionar boas histórias. Assim é Desengano, onde um jovem rapaz (jovem Camilo na verdade), vai passar um carnaval em uma cidade do interior onde os avós moravam (tradicional viagem de família) e descobre coisas sobre o cotidiano da cidade e dele mesmo que o impressionam, além claro, da descoberta do amor. Sim, a sinopse é essa, simples e aparentemente clichê, mas não se engane (trocadilho ridículo, confesso), Desengano é muito mais do que isso.

Primeiro a forma como o cotidiano é retratado, não de forma literal ou puramente descritiva, mas de acordo com a representação da personagem principal, toda a HQ é a maneira como Juca (protagonista) vê e entende a viagem, a cidade pequena, as pessoas e a sua própria vida. A realidade muitas das vezes é uma apreensão, quem confere sentido são as pessoas, e Solano consegue deixar isso bem claro através de Juca, a compreensão toda daqueles momentos de acordo com as concepções do protagonista. Muito legal e interessante. Simples, porém sensacional da forma como foi realizado.

O que nos leva a arte e as cores da HQ, a expressividade é impressionante. Considero uma arte boa quando você não precisa dos balões para te explicar o que está acontecendo, e Desengano consegue atingir isso com êxito, seja pelas expressões caricaturais dos personagens e pelo uso das cores que confere vida para a HQ.

Gostaria ainda de destacar mais dois pontos: a música e a representação da cidade pequena. Percebe-se que o autor tem um amor pela música muito grande, especialmente por Chico Buarque, o que se pode perceber em várias passagens do quadrinho, as vezes até de forma literal, o que confere um ar bastante interessante.

Quem conhece a fundo pequenas cidades vai adorar esta história, os tipos e locais retratados pelo autor, apesar de específicos daquela localidade, são bastante comuns em cidades pequenas de forma geral, portanto, você facilmente identifica e se reconhece nos quadros e diálogos (a caixa do mercado questionando sobre a cerveja é uma típica atitude de pessoas em cidades pequenas). Se você for do interior, então, a leitura fica ainda mais legal.

E por fim, o amor. Que o protagonista descobre em toda essa simplicidade, o que fecha a HQ com brilhantismo. E, não sei se a referência seria essa, mas Rita não lhe roubou o sorriso, e sim, lhe concedeu o sorriso na conclusão da história.

Sendo assim, se trata de uma bela HQ, com prefácio de Robert Crumb (claramente o autor tem em Crumb sua maior influência), e que mostra que existe um cenário brasileiro de quadrinhos bastante interessante e que um maior espaço para essas pessoas se faz fundamental.

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Texto de autoria de Douglas Biagio Puglia.

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