Quadrinhos

Resenha | Máquinas Não Choram

Compartilhar

Em tempos de smart houses, smartphones, alexas e dispositivos tecnológicos dos mais diversos, nossas vidas estão cada vez mais automatizadas, constantemente assessoradas pela tecnologia. Se por algum motivo tais recursos se esgotassem, teríamos enorme dificuldade para nos readaptarmos à vida analógica, não é verdade?

Pois então, em Máquinas Não Choram somos apresentados a um futuro próximo nos quais robôs são produtos massificados e já integrados de forma profunda na sociedade, acompanhando seus donos e os auxiliando em tarefas diárias. Após supostos problemas com o ifeel,  upgrade que possibilitou aos robôs desenvolver sentimentos, as fábricas anunciaram downgrade obrigatório, desabilitando a capacidade de sentir dos mesmos.

Por sorte, Boy e Girl, dois robôs que desenvolveram forte laço de amizade ao longo do tempo, estavam sem conexão à hypernet no momento em que o downgrade foi realizado, e agora se tornaram párias a serem caçados e temidos pelas autoridades. O acontecimento modifica para sempre as relações entre os dois e seus respectivos donos, e os leva a uma jornada de sobrevivência e de reafirmação de valores como amizade e lealdade.

Concebido por André Turtelli Poles e Renato Quirino, Máquinas Não Choram vai de referências como Wall-E e Blade Runner para desenvolver uma história leve e descompromissada que discute sobre vidas artificiais, construções sentimentais e até mesmo sobre liberdade. Com traço cartunesco e prosa ágil, a HQ alterna focos dramáticos a todo instante e dinamiza seu desenvolvimento ao entrecortar flashbacks e digressões com sutileza.

Expressiva, a narrativa visual remonta ao traço cartunesco para transmitir leveza e descontração para um roteiro que, em uma segunda olhada, se mostra mais sério do que se poderia esperar. Com uma conclusão anticlimática e um uso criativo para a "trilha sonora" da história, mesclando-a com as onomatopeias e lançando-as de forma mais solta através dos requadros, Poles e Quirino discutem livre arbítrio e autoritarismo sem maiores cerimônias, fazendo dessa pequena fábula não convencional um conto ligeiramente maior do que se supunha inicialmente.

Finais abertos carregam consigo o ônus e o bônus da controvérsia: muitos gostam, muitos desgostam, e ao se optar por algo nesse sentido, o risco se torna calculado da parte da equipe criativa. Assim, o final pode soar abrupto demais, caso se espere por um fechamento padrão para a narrativa. Essa sensação de conclusão aqui não aparece, o que deixa em aberto possibilidade de continuidade, mas também não possibilita opções imediatamente críveis para qualquer que seja o desenlace da história de Boy e Girl enquanto fugitivos da lei e sentimentais clandestinos.

Publicado via catarse, o quadrinho possui lombada quadrada, capa cartonada e cinquenta e seis páginas em papel pólen.

Lucas Fazola Miguel

Lucas Fazola Miguel é professor de português e pesquisador de Histórias em Quadrinhos pela Universidade Federal de Juiz de Fora. www.instagram.com/fazolahqs | www.twitter.com/lucasfazola
Veja mais posts do Lucas
Compartilhar