Quadrinhos

Resenha | O Entediante Trabalho de Morte Crens

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Engana-se quem enxerga O Entediante Trabalho de Morte Crens por um viés infantil, devido sua forma colorida e cartunesca, bem ao estilo “quadrinho de jornal de domingo”. A temática, porém, revela o contrário, já na primeira tirinha desta websérie criada lá em 2012, por Gustavo Borges. E se você tivesse um acordo, O Acordo, com a existência, e nunca pudesse quebrá-lo? Bom, a morte sabe o que é isso, e sente na pele que a eternidade pode ser bastante... fúnebre, ou divertida, depende do ponto de vista. Mas Morte Crens é inseguro, e ainda precisa aprender a ser feliz. Ser mais leve.

A sensação aqui, vívida até não poder mais nesses quadrinhos tão simples, e eloquentes, é uma só: o ser-humano está fadado a existir entre a Vida e Morte Crens, e não podemos evitar esse cabo de guerra. Há, porém, beleza e fascinação nesta nossa sentença tão mundana: as maravilhas da mortalidade, não precisamos ser eternos. Morte Crens sabe disso, e cumpre seu papel: tira a vida, na hora exata, no prazo do homem, da mulher, dos animais. Coitado, ele não tem o mesmo luxo que a gente: será para sempre a morte, no trabalhar incessante dos que nunca podem parar. Não é à toa que sempre está irritado, em contraponto à Vida, a menina animada de cabelos verdes. Mais parecem a neta, e o avô. Ela, só vê novidade, as faíscas! Ele, só vê o desfecho, as cinzas.

O cartunista Gustavo Borges não renega a carga filosófica desses personagens e suas condições, e insere um humor negro nas suas deliciosas tirinhas para aproveitar, ao máximo, a sua pequena grande criação cuja inspiração parece ter saído de um monólogo de O Auto da Compadecida, e que, curiosamente, faz alusão ao ciclo das coisas, acolhendo o que há de melhor na vida, e no seu fim – que pode ser um alívio ou um transtorno para cada um. De quebra, a coletânea ainda traz uma história especial, e extremamente simbólica sobre o medo de viver. A covardia do homem, assumida apenas quando a morte diz Oi. Ela é o nosso prazo. Eis uma obra para nos lembrar de viver o tempo que temos. E com coragem, de preferência. Muita coragem.

Douglas Olive

Cinéfilo formado em publicidade e iniciante com "Os Aristogatas", que assistia 5 vezes por dia na infância, e que agora começa a querer fazer seus próprios filmes. Devo estar indo longe demais.
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