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Resenha | Planetary: Vol. 3 – Deixando O Século 20

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planetary vol 3

Deixando de lado a introspecção de Snow, vista na última edição de O Quarto Homem e voltando, logo no início, para uma diferente linha temporal, Planetary em seu terceiro volume mergulha numa referência aos crossovers que ficaram famosos pelas mãos de Alan Moore em Liga Extraordinária. A Alemanha de 1919 contém referências de Fritz Lang a Bram Stoker e demais cientistas loucos, desde Frankenstein até Médico e Monstro, com humanoides de aparência grotesca que atacam o protagonista centenário.

Assim como o clima da Era Vitoriana, o barroco e gótico se misturam na arquitetura da mansão invadida, ecos vindos através do mitológico personagem encarado pelo grisalho homem. O novo século foi cruel com o velho detetive. Sherlock Holmes apresenta seu semblante cadavérico, uma sombra do homem que já foi, mas em momento algum demonstra ser subestimável, apesar da necessidade, a pedido de seus sócios, de ter consigo um guarda-costas sobrenatural, sendo esta uma figura das mais inconvenientes.

A experiência de Holmes serviu para que Snow conseguisse seu objetivo em esmerar-se no ofício detetivesco, bebendo direto na fonte, consultando o maior membro da classe. O quarto homem prosseguiu ao lado de Sherlock até que seus olhos se fechassem, até que a velhice desse seu último golpe, encerrando a existência do bravo homem, que tinha desgosto de perceber o sotaque do seu pupilo, mas que teve seu testamento vivo nas atitudes do seu último aluno.

Ambrose, Jakita e Batera são mostrados em ação em flashs, que contemplam suas ações além de uma invasão à base do Planetary. Os lapsos referem-se às sinapses da confusa mente de Snow, exibindo momentos na mesa de cirurgia do Dr. Dowling no momento em que a mente do líder seria apagada. As bravatas de Snow eram enormes, com ameaças violentas ao grupo de que eles encontrariam a morte caso ele voltasse a ter suas lembranças. Partes do segredo vão aos poucos sendo revelados. A ordem de não permitir que os “desgraçados vençam” demonstra todo o temor que acomete o imaginário e o planejamento do misterioso mentor do quarteto.

Os motivos da censura à própria mente não são revelados de modos instantâneo, pelo contrário, os elementos exibidos somente confundem mais o leitor, especialmente os que lembram artefatos mágicos e armas semelhantes às usadas por divindades místicas. Elijah assemelha-se aos imortais não somente por sua idade avançada, mas também por todo o misticismo que envolve sua persona.

Ainda resgatando as lembranças, a parada que Snow e Wagner fazem é na viúva de Ambrose, que busca dar qualidades financeiras para tentar aplacar a dor da perda de seu antigo subalterno, prestando homenagens ao falecido agente, declarando a sua parentela todo o seu caráter heroico. Após isto, ele encontra-se com Alex Brass sem nenhum motivo aparente a não ser a vontade em se inspirar antes de entrar em ação novamente. Elijah buscava em suas figuras de exemplo a força que não encontrava em si, uma vez que sua identidade ainda permanecia incógnita.

A inspiração no desbravador Carlton Marvell aumenta a sensação de carência no protagonista, que fazia até de um desconhecido o impulso e estímulo para lutar contra as figuras dantescas e milenares.

O trabalho artístico de Cassaday continua como um dos pontos mais altos da publicação, variando de estilo com uma facilidade atroz, especialmente nas referências visuais a diferentes partes do globo. As cores de Planetary fazem eco com a realidade e com a contemporaneidade; aquarelas belíssimas que também dão um tom de clássico, condizente com todo o resgate de objetos canônicos da cultura pop que Warren Ellis sempre tenciona mencionar.

Kevin Sack, um dos alteregos de Elijah, investigava uma área florestal nos anos 1930 quando encontrou o aventureiro descamisado Lord Blackstock. Opark-Re é uma vila futurista, composta por negros de tecnologia muitíssimo avançada, cuja economia era baseada nos mandamentos de Marx e Engels. O Fantasma do Século XX é marcado de modo emocional, cuja lembrança precisa ser revisitada em virtude do apagão de sua psiquê, o que ajudaria ainda mais a esconder a origem de outra personagem, além de referenciar a catástrofe de inúmeras civilizações perdidas, como Atlântida.

Após ter um encontro com John Stone, Elijah recebe a notícia de que seu nêmese está por perto, e ele poderia enfim ter sua vingança, mas, para isso, precisaria se livrar de seu orgulho e aceitar a ajuda de seus parceiros. O Dr. Randall Dowling é vencido com uma grande facilidade. O foco de interesse na última edição fica por conta do romance Da Terra à Lua, obra em que Julio Verne teria fantasiado toda uma expedição interespacial do Clube da Arma Americana, cujo final foi trágico, diferente demais do desfecho literário e semelhantes aos análogos reais da cruel existência do homem na Terra.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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