Dois olhares sobre a metrópole no cinema de Scorsese

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Poucos cineastas têm o mesmo prestígio que Martin Scorsese. A despeito de algumas críticas ruins que seus últimos longas tenham recebido, Scorsese tem uma carreira que inclui alguns dos filmes mais importantes das últimas décadas – obras-primas suficientes para alçarem-no ao posto de grande importância que ocupa, e fazerem filmes duvidosos, como O Aviador, passarem despercebidos. Ainda que muitos digam que ele não tem o reconhecimento que merece, nem da Academia (que o premiou tardiamente), e nem do público, não se pode negar que Scorsese tenha uma carreira de muito sucesso. Nomes como o dele e o do também norte-americano Quentin Tarantino são aqueles que têm confiança o bastante dos produtores para conseguirem realizar, ainda que por dentro da indústria, um cinema genuinamente autoral.

Tamanho reconhecimento não é sem razão. Com uma formação acadêmica (rara entre os cineastas de sucesso, que normalmente aprendem o ofício nos próprios sets), Scorsese desenvolveu um estilo próprio de filmar. Seus filmes são reconhecíveis por uma agilidade inigualável e uma linguagem vibrante, que magnetizam a atenção de qualquer espectador. Utilizando técnicas que privilegiam essas características, ele se popularizou filmando histórias ambientadas em Nova York, sua cidade natal, e explorando ao máximo as peculiaridades da vida metropolitana. O resultado são filmes ao mesmo tempo instigantes e de grande profundidade psicológica. Essa é a receita, dentre outros filmes, do seu mais elogiado longa-metragem: Taxi Driver.

Tido por alguns como um dos maiores filmes de todos os tempos, Taxi Driver é uma dessas obras que arrebatam admiradores a cada geração. Não é simplesmente um grande filme, mas aquele que lançou definitivamente a carreira de Scorsese como diretor, de Paul Schader como o excepcional roteirista que é, e do grande ator Robert De Niro. Ele interpreta Travis Bickle, um ex-militar que trabalha como taxista na madrugada de Nova York. Devido à natureza de seu trabalho, Travis é obrigado a percorrer toda a cidade observando o submundo: prostitutas, bandidos, policiais corruptos, crimes. Os mais variados habitantes da madrugada passam pelo seu táxi (ou seu táxi passam pelas suas esquinas), e não escapam à sua observação atenta e moralista. Ao longo do filme, o isolamento em que Travis vive, seu trabalho que o força a conviver com a perversão, o ódio que ele acumula pelo que ele chama de “escória” – sua estranha relação, enfim, com a cidade em que vive, levam-no a enlouquecer . Essa loucura a que Travis chega é o resultado de sua submersão em um ambiente também enlouquecido, e a figura excêntrica que ele se torna é apenas mais uma num lugar repleto delas.

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Taxi Driver é um filme violento e polêmico, que causou muita controvérsia na época de seu lançamento, e ainda hoje tem poder de perturbar e causar reflexão. Uma das cenas emblemáticas dessa violência da qual o filme trata é também uma das mais fortes: a de um assaltante que é espancado, depois de já estar baleado, pelo dono de uma loja que ia ser roubada. Não há muito derramamento de sangue na cena, mas choca a forma covarde como o dono da loja surra o bandido, já inconsciente, a pauladas.

Distante do drama psicológico e da crua observação do submundo, Scorsese foi também capaz de dirigir uma comédia premiada: Depois de Horas. Nesse filme, o diretor aproveita a mesma madrugada nova-iorquina para lançar um olhar irreverente à sua cidade e aos tipos estranhos que se encontram nas metrópoles. Com um roteiro muito bem feito e uma direção premiada em Cannes, Depois de Horas é um dos filmes mais interessantes de Scorsese. O personagem principal é Paul Hackett, um sujeito comum que trabalha numa grande firma em Nova York, e que se interessa pela sensual Marcy. Os dois marcam um encontro, e ele é o estopim para uma série de acontecimentos que se cruzam, formando uma verdadeira bola de neve, enquanto o pobre Paul simplesmente tenta voltar para casa. Ele não contava, entretanto, que depois de horas um outro mundo emerge na cidade, povoado por artistas ensandecidos, bandidos atrapalhados, garçonetes solitárias, homossexuais vendendo seus corpos, mulheres fazendo a ronda no quarteirão dentro de veículos inusitados, e vários outros personagens insólitos. O resultado disso é uma avalanche de situações pra lá de esquisitas, das quais o azarado Paul tenta se safar para chegar inteiro em casa. Uma surpresa sucede à outra até nos momentos em que parece que nada mais pode surpreender.

Um filme de ritmo acelerado e repleto de estranhezas, Depois de Horas é uma outra descrição, mais bem-humorada, da mesma Nova York de Taxi Driver. Ambos tratam da metrópole e da relação estranha que um protagonista acaba estabelecendo com ela. A diferença é que, enquanto em Taxi Driver temos um Travis Bickle atormentado pela falta de moralidade, que, não resistindo à pressão que sofre, reage de forma brutal, em Depois de Horas assistimos a um assustado Paul Hackett, que, ao se deparar com um outro mundo dentro da cidade que ele julgava conhecer, não encontra a maneira certa de agir, e acaba se metendo em hilárias encrencas.

Esses são apenas dois exemplos do talento de Martin Scorsese, e duas ótimas introduções para o universo de seus filmes. Tanto no drama quanto na comédia, ele realizou grandes obras e contou histórias interessantes sobre Nova York, suas peculiaridades e estranhezas. Soube fazer seu público se chocar e se entreter, refletir e se divertir, rir e chorar da sua cidade – tudo isso com a maestria que faz dele, seguramente, um dos maiores cineastas da atualidade.

Texto de autoria de Rafael Palomino.

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