Crítica | 120 Batimentos Por Minuto

Sean Dalmazo era um ativista LGBT, soropositivo e um dos principais membros do grupo Act Up de Paris, uma ONG voltada a defesa dos direitos dos LGBT. Em 120 Batimentos por Minuto, Robin Campillo se passa durante os anos 1990 e estabelece uma linha narrativa através da experiência de Sean (Nahuel Perez Biscayart) e outros jovens desse movimento, mostrando doentes e simpatizantes da causa convivendo com a rotina de um grupo extremamente didático, cujo modus operandi burocrático lembra muito os partidos menores existentes no Brasil.

Os atos organizados pelo grupo passam por uma intensa bateria de discussões, que incorrem em acaloradas conversas sobre os métodos usados. Sean é um dos partidários de ações mais extremas e agressivas, enquanto Thibauld (Antoine Reinartz), presidente e porta voz do conselho tenta vias mais democráticas. Essa disputa entre as posturas é bem desenhada pelo roteiro, mostrando que normalmente o modo de agir dos manifestantes tem a ver com o avanço da doença em meio ao sistema imunológico dos que defendem sua posição. A taxa de plaquetas de Sean está baixa e por isso sua pressa por melhores resultados é tão grande.

A condução de Campillo é bastante calcada no emocional. Tanto o ativismo quanto as cenas de sexo são viscerais, fortalecendo ainda mais o senso de urgência do longa. O filme é flagrante e consegue ser melancólico de modo muito equilibrado no começo, ainda que pese bastante a mão próximo do final.

As cenas de festas são oníricas, e ao contrário de tantos filmes que exploram temática LGBT, não há apenas uma curtição movida pelo desejo de entretenimento. As baladas simbolizam o desejo por libertação das amarras que a enfermidade rogou pelas pessoas retratadas em tela. Todos os conflitos ideológicos fazem sentido e o motivo óbvio do óbito se aproximando torna a sensação de comoção em algo real. Não há como se ignorar o grito dos revoltosos.

Os trinta minutos finais se dedicam a uma outra exploração de tema, mirando na decadência física de Sean, mostrando que apesar de todas as festas, das discussões e dos planos estabelecidos, havia na vida dele e de praticamente todos os jovens mostrados pela câmera de Campillo uma finitude programada. Saber o momento exato ou próximo da morte não tranquiliza o sujeito, ao contrário, o deixa em pânico. Sean tem seus últimos momentos com pouca ou nenhuma qualidade e o processo de definhar até sucumbir é doloroso não só para os seus como para a plateia. 120 Batimentos por Minuto faz questão de criar no espectador uma sensação de urgência e angústia atroz, que de forma minimizada, busca emular a mesma desolação dos condenados pelo HIV, sem esquecer obviamente que para os que ficam, a vida, a causa e a luta continuam.

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