Crítica | 22 de Julho

É difícil imaginar alguém além de Paul Greengrass, ou O único cara que sabe fazer uma câmera tremida parecer espetacular, em Hollywood, comandando o filme em questão – talvez o soberbo Michael Mann dos anos 80, 90, mas certamente não o cineasta pós-Hacker, de 2015. 22 de Julho, tal Jogador Nº 1 e Infiltrado na Klan, parecem ser projetos moldados estritamente sob medida para seus cineastas, mantendo suas peculiaridades e acentuando seus talentos para determinados temas e proporções, por mais conveniente que isso seja, e por mais que esse problema, o da conveniência, seja o verdadeiro calcanhar de Aquiles do filme que Greengrass fez para a poderosa Netflix.

Na Noruega, como parte de uma célula muito maior contra o multiculturalismo que assola a Europa, com os números de imigrantes crescendo e alarmando cada vez mais os seus detratores racistas, um jovem e insuspeito terrorista planta uma bomba numa van em frente de um edifício do governo, perto do gabinete do primeiro ministro do país, em Oslo, logo antes de estender calmamente o seu caos planejado a um alegre e divertido acampamento de férias, com centenas de jovens submetidos ao terror ambulante que chega com uma bazuca em mãos. Lá, eles os avisa ser um dos quatro cavaleiros do apocalipse, e extermina setenta e sete pessoas, deixando para trás, entre suas vítimas, um dos únicos sobrevivente do seu segundo ataque em estado gravíssimo.

Toda a sequência de ataques terroristas duplos, em que Greengrass nos mostra porque deve ser considerado um mestre contemporâneo do Cinema de ação, já podem ser tidas como um dos grandes momentos de qualquer filme original presente nos catálogos da Netflix. A tensão desses momentos é absurda, em especial os instantes sufocantes que sucedem a explosão da bomba, deixando inúmeros feridos e um departamento de segurança nacional desesperado, e a sequência angustiante dos adolescentes correndo na floresta, perdidos e confusos, de um ódio inexplicável. A tensão pinga da tela, e é difícil piscar, tamanha hipnose projetada. Contudo, e a partir desse brilhante começo, 22 de Julho divide seu foco entre as consequências judiciais da captura do terrorista, e a recuperação física do garoto que viveu para contar a história – por mais eternamente fraturada que tenha ficado sua psique.

Assim, o filme dilui sua tensão e seu poder hipnótico em duas frentes narrativas complementares, mas que apenas servem para expor as digressões de um drama que nunca sabe onde quer chegar, e no que abordar no que tange seus temas mais relevantes – a psicologia do assassino, a lógica do terrorismo, a lógica do estado tratando esses crimes, o retorno da vítima à uma vida normal após sobreviver a esse atentado a vida humana. Todos assuntos que Greengrass não consegue (e nem tenta) empregar um décimo da força que inseriu nos maravilhosos momentos iniciais do filme, tornando boa parte da obra, e sua principal, devido à importância para a história da reflexão dos temas já mencionados, o oposto qualitativo do seu início – inesquecível, para muitos espectadores.

Em certo momento, quando o sobrevivente Viljar começa a recuperar sua autoconfiança saindo com uma garota, ou quando o matador Anders Breivik, trancado numa sala com diversos detetives policiais, admite suas paranoias confessando desconfiar que os seus pensamentos podem ser ouvidos pelas pessoas, o diretor do ótimo O Ultimato Bourne não parece querer investigar mais nada, apenas dar closes e mais closes no rosto do homicida e seus analistas, e partir para a próxima cena, num ciclo de anti-dramaticidade e desinteresse que incomoda, após duas horas de filme. Aqui, Greengrass poderia ter assistido a 12 Homens e Uma Sentença, clássico imbatível de Sidney Lumet, e ter se inspirado mais no trato com a criminalidade, a justiça e a democracia, e o quão intenso e grandiloquente esse trato pode agir a favor de uma grande e coerente abordagem cinematográfica. Pelo menos a sua câmera tremida, essa sim, continua imbatível.

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