[Crítica] A Criada

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A Criada (The Handmaiden), de Park Chank-Wook, é um filme simplesmente gigantesco. Gigantesco não por sua metragem (Apenas 2h25m, que passam com uma fluidez perfeita), mas por sua grandiosidade como cinema, conseguindo ser impecável em todos seus aspectos cinematográficos. Da trilha sonora, com temas asiáticos tocados em um conjunto de cordas, ao som de lâminas em trombetas distorcidas, tendo o cuidado de jamais parecer dissonante daquilo que vemos em tela, e sem também subtrair a emoção que está sendo exposta, mesmo quando um mesmo tema é utilizado em cenas de diferentes tons. O tema principal, que acrescenta um sutil piano, em uma melodia um tanto mais épica, é provavelmente, o tema mais bonito do cinema dos últimos anos. O filme, é simplesmente necessário de ser visto. Irretocável.

O longa metragem, adaptado do livro Fingersmith (sem tradução no Brasil) é uma jornada que busca o espaço para o amor, para a dor, vingança e desejo, através de nossos elementos mais primitivos e sensoriais, no complexo romance entre a criada Sookee (Kim Tae-ri) e sua dama Hideko (Kim Min-Hee), que ao dividir-se em 3 capítulos, que visam contar a história a partir do ponto de vista de diferentes personagens. Tal estratégia é capaz de demonstrar o poder narrativo do cinema de se contar histórias completamente diferentes, com as mesmas imagens e mensagens, a partir do ritmo, compasso, e elementos audiovisuais.

A direção de arte recria uma Coreia do Sul do início do século passado, de forma híbrida, ao fundir arquitetura e vestimentas que se espera ver na Inglaterra e Japão do mesmo período, criando uma obra que aparenta ser contextualizada em um espaço-tempo que é só dela. A fotografia delicada é usada para ressaltar a atmosfera intoxicante de fumaça, incerteza e medo que ronda seus protagonistas, bem como ocupa-se de mostrar seus atores com movimentos previamente medidos, onde até mesmo o acerto da lapela do chapéus se recheia de significados, pois aqui ninguém é exatamente confiável. Ressoando obras como Engraçadinha, de Nelson Rodrigues, é possível reter na memória esquemas bastante universais sobre como se lidar com esses pilares nada fáceis, como é a vingança, o amor e o desejo, porém A Criada ocorre em um outro nível, um nível que Aristóteles chamaria de plano etéreo. É acima dos céus.

Stanley Kubrick já dizia que o sexo e a violência são parte do dia a dia, e sendo assim, parte da arte. Aqui a dosagem é precisa e faz com que esses dois ingredientes tão complexos trabalhem para entrelaçar vidas e futuros, em uma poesia única que tortura e alivia.

É a jornada através dos espasmos, das palavras sussurradas, vozes falhadas, gritos amordaçados pelo ar que já se foi, o aroma do vinho envelhecido, o orvalho sincero da rosa, e por fim, a queda conjunta do golpe de amor final, mergulhando na fluidez daquele rio. Numa dança de desejo e emoção, hora pele e língua, hora a alma que só o olhar é capaz de revelar, é no seio amado que se conserta o que quebrou, acendendo assim o santo que não se é, entre as pernas é que a carne sã se despedaça e releva, como uma faca desfibrando o horizonte, o Sol que leva amantes à míngua, sede e calor.