Cinema

Crítica | Adeus à Linguagem (2)

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Adeus a Linguagem 1
O cultuado diretor francês Jean-Luc Godard resolve fazer um experimento visual e comunicativo. Seus últimos filmes, apesar de não terem a qualidade - seja pelo quesito datado da Novelle Vague ou por uma adaptação demorada aos novos complexos e globalização - que os clássicos Acossado e O Demônio das Onze Horas, ainda assim representam todos os questionamentos expostos de maneira ácida que só Godard poderia fazer.
Em seu novo filme, Adeus à Linguagem, a história resolve focar um casal que parece não possuir pudor e nem se limitar aos costumes morais e éticos da atual sociedade. Demonstram estar à parte, descolados e que sua exclusão é proposital. No entanto, o longa-metragem resolve fitar o cão como o personagem principal, mas não o protagonista. O protagonismo é mutável e em muitos momentos, se torna a própria forma que Godard se comunica com quem assiste seu filme. Cada vez mais a comunicação, a linguagem e o uso de metáforas através de discussões e ponderações tomam corpo e saltam ao 3D, deixando o 2D seguir sua linearidade, mas não deixando um sem falar com o outro.
O diretor se apropria do 3D de uma maneira curiosa e que atiça diversas sensações. Não somente como um elemento visual, o filme exibido em três dimensões quebra a contínua linha narrativa e revela uma outra linguagem que, mesmo que seja diferente, é o viés encontrado para não somente contar como há estes deslocamentos e desapropriações de ambiente e contexto, mas também para criar parâmetros, estabelecer pontes que permita ao espectador compreender a proposta do filme. De maneira até experimental, ele é disperso e confuso. Há cortes de cenas e áudios e algumas frases não foram traduzidas, a pedido do próprio Godard. Será que isso também foi um artifício para que você se sentisse incomodado por não compreender o que está sendo dito?
A física do filme permite que mesmo disperso e aleatório em alguns momentos, tenha sua linha temporal peculiar, com encontros e momentos que cravam um tempo dentro dele. O nascimento do filho, as mudanças de valores e comportamentos que são influenciados pelo ambiente que os rodeiam. É um ensaio visual que não necessitou de um roteiro extenso e tampouco história para se desenvolver. O abuso do abstrato, da multi interpretação e da quebra de linearidade - reitero que isso não desconstrói a história simples do filme - são os elementos que Godard esbanja e retrata uma expressão artística peculiar, realista e temporal.

Sobre o avanço da tecnologia, há o retrocesso da linguagem. Há a ausência cada vez maior de comunicação e fala; isso é o que transforma todas as relações entre as pessoas e destas com o redor difícil, precária. O cão, o que foge das questões de moral e ética do ser humano é o personagem mais vivo do filme, pois tudo que é interferido por ele sofre de sua solidão. Todas as cenas com ele, o acompanha sozinho em meio a enormes meios. Florestas, praias, cidades. Porque para ele a exploração é parte de seu processo natural, de vivência. A descoberta e a autonomia. Falta isto aos homens.

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Texto de autoria de  Adolfo Molina Neto

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