[Crítica] Animais Fantásticos e Onde Habitam

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Muito se especulou sobre uma possível sobrevida para a franquia Harry Potter nos cinemas, principalmente, depois que sua criadora, J. K. Rowling, começou a defender a ideia de que o universo idealizado por ela é muito mais complexo do que os oito filmes já exibidos apresentaram ao público. Após três anos, dois meses e cinco dias do anúncio de sua produção, Animais Fantásticos e Onde Habitam finalmente chega aos cinemas com a missão de transportar os fãs de volta ao universo mágico e, ao mesmo tempo, conquistar o público mais adulto, que pode ser considerado um dos principais alvos do longa-metragem.

Apesar de existir no mesmo universo da octologia original, Animais Fantásticos é um prequel, ou seja, uma produção que preserva os mesmos elementos e a dinâmica da história original, mas que antecede os eventos da mesma. Situada na Nova Iorque dos anos 1920, a trama apresenta não mais um trio, mas um quarteto protagonista encabeçado por Eddie Redmayne na pele de Newt Scamander, um magizoologista (estudioso da fauna mágica) que, ao chegar a cidade, acaba trocando sua maleta, onde vivem os seres que dão nome ao filme, com a de Jacob Kowalski (Dan Fogler), um novaiorquino em busca de auxílio bancário para realizar seu sonho de abrir uma confeitaria. As criaturas mágicas espalham-se pela cidade e são confundidas como uma outra ameaça que anda provocando estranhos fenômenos.

Compondo o quarteto protagonista, temos ainda Katherine Waterston e Alison Sudol vivendo as irmãs Tina e Queenie Goldstein. A primeira, no passado, foi uma auror do Congresso Mágico dos Estados Unidos, mas teve seu cargo retirado. Já Queenie, possui o dom da legilimência, ou seja, leitura de mentes. Embora todos os atores centrais entreguem boas atuações é necessário destacar o brilhantismo de Dan Fogler que poderia facilmente cair no lugar comum do gordinho engraçado, mas que supera o estereótipo mostrando-se não só fundamental na trama, mas também como agente da avatarização dos espectadores, já que é o único trouxa do elenco central.

Eddie Redmayne também está muito bem em cena, mas a sensação que fica é a de que Newt Scamander possui muito mais para apresentar. O personagem possui um modus operandi muito curioso. Cercado de trejeitos, ele é tão misterioso quanto os animais que estuda. Aliás, o subtexto da preservação da vida animal é um grande acerto do filme. Scamander dedica a vida para protegê-los e essa relação rendeu cenas muito bonitas do personagem.

Deve-se deixar claro o tom mais maduro que o roteiro imprime. A sociedade bruxa novaiorquina vive oculta do mundo humano. São terminantemente proibidos os relacionamentos, negócios e qualquer outro vínculo entre os bruxos e os ‘não-majs’, forma como são chamados os trouxas nas Ámericas. O Ministério da Magia americano tenta ocultar as situações que possam por em risco a existência do mundo bruxo, temendo uma guerra ou uma caça às bruxas.

É curioso como um universo tão fantasioso como o de J K Rowling consegue emular a realidade, abordando questões como preconceito, classismo, fanatismo religioso, defesa dos animais, entre outros. Credence, personagem de Ezra Miller, e sua família são exemplos claros da intolerância (quase religiosa) e do quanto a negação ao outro revela sobre nós mesmos. Fã da franquia original, Ezra mostrou-se muito à vontade no papel, sendo inclusive um dos destaques positivos do longa.

Diferente do que aconteceu nos primeiros filmes de Harry Potter, onde a paleta de cores vivas e mais infantil deu o tom da ambientação de cenários, Animais Fantásticos possui uma fotografia acinzentada do início ao fim. A cidade de Nova Iorque é vista quase sempre nublada, o que facilita o entendimento do público sobre os contornos da obra. Tal solução é clássica predileção do diretor David Yates que, depois de dirigir quatro dos oito filmes do menino bruxo, retoma a parceria com Rowling e assina a direção deste filme. Yates apresenta uma clara evolução daquele que foi considerado seu ponto fraco no passado: o ritmo. Nesse longa, apesar de existir uma clara dualidade entre drama e comédia, a passagem de um terreno para outro é feita de maneira gradual, sem que o espectador tropece em piadas desnecessárias.

Apesar de ser o primeiro filme de uma pentalogia, trata-se de uma história com início, meio e fim. Não prevalecendo a sensação de ter sido esticada somente para os executivos da Warner lucrarem. Além disso, não se faz necessário quase ou nenhum conhecimento acerca da saga original para um perfeito entendimento dessa nova série de filmes.

Animais Fantásticos e  já pode ser considerado a melhor adaptação para o cinema de uma obra literária de J K Rowling. Sim, pois, ao longo da trama, os seres são apresentados um a um e em tom enciclopédico, assim como sugere o livro/almanaque que dá nome ao filme. Divertido, leve e com subplots extremamente relevantes, temos aqui um belo começo para uma saga que aponta no horizonte.

Texto de autoria Marlon Eduardo Faria.