Crítica | Aprendizado Para a Morte

Era algo bastante comum durante a época da Segunda Guerra Mundial um esforço de quem quer fosse parte da cultura popular da época, tratar de assumir um lado contra ou a favor do Eixo. Enquanto Hergé foi obrigado a transformar Tintim em um personagem da juventude hitlerista, o Capitão América dava um soco no rosto de Hitler, Batman e Robin, e até o Superman posavam montados em canos de canhões e obviamente Walt Disney se posicionava contra Hitler e seus companheiros de guerra. Alguns filmes curtos foram feitos, alguns panfletando a favor do American Way of Life, mas nenhum foi tão bem posicionado quanto a Education for Death, chamado também em alguma edições brasileiras de Aprendizado Para A Morte.

O filme começa com uma narração bem expositiva e explicativa de Art Smith, sobre como é “feito” um nazista, falando da doutrinação ainda pequeno, usando como exemplo os pais do pequeno Hans, que entregam a documentação da certidão de nascimento. A figura de autoridade alemã é preenchida de cores escuras, e é vista por cima, em um palanque que lhe confere um aspecto quase divino, não à toa, pois este homem em questão tem poder até para vetar certos nomes as crianças. Hans não está entre as alcunhas proibidas.

O filme tem pouco mais de 10 minutos, é baseado no texto de Gregon Ziemer e direção de Clyde Geromini, e o seu conteúdo não tem qualquer pudor em parecer propagandista, até porque há de se lembrar que o estado alemão produziu boa parte da cinematografia do pais nos anos 30 e 40. Antes dos pais enfocados irem embora, eles recebem uma caderneta, com doze espaços para nomes de crianças, uma nada sutil sugestão da quantidade de filhos que deveriam ter, afinal era preciso lotar as filas de alistados.

O que se fala hoje de anti doutrinação nas escolas brasileiras conversa demais com o que é visto aqui, obviamente não pelo viés que programas mal intencionados como o Escola Sem Partido pregam, até porque para  qualquer bom observador é bem claro que o objetivo desses é sim incutir sua própria ideologia nas crianças. Além do livro mais lido pelos alemães, Mein Kampf, também eram distribuídos outros materiais mais infanto juvenis, que comparavam a Democracia as bruxas de contos de fadas como A Bela Adormecida de Branca de Neve.

Disney sempre foi conhecido como um produtor e realizador de historias maniqueístas, e obviamente que o filme assinado por si debocharia das figuras em questão. A princesa dita num conto é uma mulher gorda, para representar a Alemanha, e o príncipe/cavaleiro que a salva da Democracia malvada, é Hitler, uma figura extremamente caricata. O fato disso conversar muito bem com a cinematografia dos anos quarenta do século passado faz o filme ser palatável, evidentemente, mas é absurdo como as mesmas técnicas que utilizavam com Hans, de alta repetição de preceitos e saudações nazistas é ainda utilizada para a montagem da mentalidade de boa parte da direita autoritária, com discursos montados em cima de falácias e apelando para preconceitos acéfalos paara encurtar a distancia entre o discurso teórico e o pragmatismo das pessoas.

Hans, ao errar é encarado por retratados com feições más de Hitler, Goering e Goebbels, as figuras políticas eram muito presentes. Essa simples descrição pode fazer o filme parecer bobo, mas esse didatismo serve bem a sociedade, e mostra que a construção de um povo que abraça a intolerância não ocorre por acaso, e é preparado de modo gradativo, mesmo que o filme apresse um pouco esse processo. Ainda assim, Aprendizado Para a Morte é um curta de uma intenção correta, dentre os filmes comprados pelo governo americano, não à toa o forte final, igualando todos os soldados a cópias uns dos outros, que tem em comum as cruzes visíveis com o símbolo da suástica.

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