[Crítica] Aquarius

Aquarius

O cinema brasileiro possui um identidade metamórfica. Ao mesmo passo que as chanchadas foram muito populares na década de trinta – e resgatadas durante o regime militar através da pornochanchada – ainda houveram tantos outros movimentos cinemáticos no país, incluindo aí o Cinema Novo de Gláuber Rocha, Nelson Pereira dos Santos etc, que foi praticamente sepultado na ditadura de 1964. Após a retomada, surgiram tantas outras designações de formatos e gêneros, sendo o novo cinema pernambucano um dos mais celebres, inteligente e inventivos, liderado por cabeças como Claudio Assis, Lírio Ferreira e claro, Kleber Mendonça Filho. Tal geração foi tão interessante que abriu as portas para tantos outros cineastas também experimentarem novas tendências, vindo a luz Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso, Camilo Cavalcanti e outros.

O novo filme de Mendonça, Aquarius, poderia ser apenas mais um manifesto dessa visão peculiar e cinematográfica que  Recife e seus realizadores possuem, mas não é, constituindo em si um filme universal, feito para o mundo e não só para a mentalidade brasileira, não à toa ganhou prêmios por onde passou. Tal caráter de cidadão mundano se resume na persona carismática, inteligente e talentosa de Clara, vivida pela inspirada Sônia Braga, uma mulher forte, que escreveu livros e matérias jornalísticas por toda uma vida e que venceu diversas contrariedades – incluindo um câncer-  até chegar a casa dos sessenta anos, como moradora do Aquarius, um prédio que está para ser demolido, tendo somente ela como habitante.

A construção do conjunto de sentimentos explorada no longa não é explícita e o modo como Kleber conta sua história são em flashs da vida de Clara e dos seus familiares e amigos, correndo boa parte da juventude da mulher e claro de sua vida em pleno 2014, tendo de lidar com a modernização de tudo. Independente do formato a se consumir, a mulher sabe se virar com quaisquer obstáculos tecnológicos, fazendo do sentido de sua vida algo muito maior do que o simples ultrapassar de patamares da atualidade, se provando como um ente que não pertence a qualquer período de tempo específico.

A discussão dentro do longa foge da simplicidade prevista na classificação de manifesto político passando ao largo de toda a polêmica envolvendo sua equipe de produção. Achar que Aquarius é mais um filme pró governo petista é além de uma redução de tema uma demonstração de profunda ignorância a sinais óbvios. Apesar de muito menos hermético do que o anterior O Som Ao Redor, este também possui uma defesa de um estilo de vida em desuso, onde as relações pessoais são mais importantes do que meras burocracias e esforços de trabalhos fúteis.

A vida de Clara é preenchida com amor e é feita a um estilo antigo, por isso demarcar seu território e permanecer no lugar onde quer é uma manifesto ideológico, além de estar completamente dentro de todos os seus direitos. A relação que a mulher tem com a imobiliária que quer fazer do terreno um grande estabelecimento é áspera e direcionada em uma figura de ódio, o engenheiro Diego, vivido por Humberto Carrão, um homem jovem, bonito, de fala mansa e ideias que se contradizem, simbolizando ali a geração de novos empresários que pensam em seu lucro acima de quaisquer outras necessidades alheias.

Curiosamente os dois personagens que destoam em sotaque são exatamente Clara e Diego. Os dois se antagonizam e não revelam por completo sua identidade, transitando entre a leveza que normalmente abarca o pernambucano comum e a despreocupação carioca, ao menos até o ponto em que são confrontados. Como é de se esperar a justa entre os dois é mais do que apenas uma questão de moradia ou cessão do lugar disputado, envolve ideias e objetivos de vida e é absolutamente delicioso assistir Braga interpretando uma mulher forte, altiva e sabida de seus próprios direitos e identidade. A escolha não poderia ser melhor e a condução sensível de Mendonça somente maximiza a sensação de familiaridade com a personagem, situando ela como uma lutadora, sempre, tanto no passado quanto no presente, sem precisar levantar bandeiras nem na pretensa época da ditadura ou na contemporaneidade.

Aquarius fala de muitos eventos simultâneos, discorre poeticamente sobre princípios éticos progressistas não caindo na vala comum do panfletarismo. Está longe de ser esse retrato pobre de manifestação política que grande parte de seus detratores querem fazer aparenar o longa. Sua condução é singela e carrega toda a herança do tradicional cinema brasileiro, evoca os tempos áureos da sétima arte feita no Brasil e consegue perverter com delicadeza o conservadorismo e a perseguição tanto a condição de Clara quanto tudo que envolve o filme no âmbito externo. A experiência transcende a linguagem e faz dos frios aspectos técnicos elementos vivos que somente engrandecem a arte, justificando em absoluto toda a adoração ocorrida em terras estrangeiras a essa obra.