[Crítica] As Vantagens de Ser invisível (1)

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As Vantagens de Ser Invisível é baseado no livro homônimo de Stephen Chbosky – que também assume a direção. É um drama leve, pelo menos à primeira vista, e conta a história de um adolescente que se vê sozinho em meio a todos os conflitos que esta fase proporciona. Essa é a sinopse básica, mas falar isso seria arranhar muito na superfície, a película é bem mais do que parece.

A película toca em temas espinhosos, e de uma forma única, foge de clichês e em momento nenhum é piegas ou panfletário. As Vantagens de ser Invisível é basicamente sobre pessoas traumatizadas. Charlie tem um bloqueio devido a um trauma, e essa questão só é “solucionada” no final do filme. Sam, personagem de Emma Watson (deliciosa como nunca e sexual ao extremo) tem vergonha do seu passado, Patrick, seu meio irmão, tem um relacionamento amoroso escondido, e eles formam um grupo de desajustados, auto-nomeados como Invisíveis, por não se encaixarem no padrão de colegiais normativos americanos. Charlie se vê como parte de algo quando está com este grupo de amigos, e isso o ajuda a superar seus demônios e a se livrar de sua incômoda solidão. Na prática, os Invisíveis são como um grupo de apoio mútuo, onde todos sofrem, se descobrem e são felizes juntos.

O filme é entrecortado pela narração do protagonista, mas ao contrário da praxe geral, as falas acrescentam muito a história e preenchem o que as imagens não “poderiam mostrar”, principalmente por causa do tom de confessionário, isso é um dos enormes acertos de Chbosky. A edição também é algo primoroso, a montagem no final do filme faz com que o espectador sinta-se tão angustiado quanto o personagem.

Quantos as atuações, pelo menos nos papéis centrais não há do que se reclamar. Pequeno destaque para Tom Savini e Paul Rudd, que fazem dois professores com funções completamente diversas. Savini faz um mestre corretivo, um pouco fascista (pelo menos para um dos personagens) e que grifa as exclusões, enquanto Rudd faz um mentor na mais pura essência da palavra, incentivando Charlie e fazendo-o descobrir sua vocação, mas tudo isso é só pincelado. O destaque mesmo vai para Ezra Miller, já visto (muito bem por sinal) em Precisamos falar sobre Kevin, que faz aqui um papel completamente diferente do anterior citado, é um garoto irônico, ácido, que odeia obviedades e com uma personalidade forte, seu Patrick é um personagem riquíssimo, e só é crível graças à ótima atuação de seu intérprete.

O tema central da história e as razões que levam o protagonista a ser o que ele é só são revelados com o decorrer da história, e a maneira como é mostrada é adulta, séria e sem rodeios – nesta parte parece até que ele muda de gênero, o que é ótimo. Quando Charlie se sente inseguro, ele sempre se vê como um garotinho, de volta a sua infância e de volta a relação conturbada que teve com a sua tia que faleceu – sua pessoa preferida no mundo. O molestado sente-se culpado pelo destino do molestador, e essa questão é uma analogia para muitas coisas, inclusive para questões do cotidiano.

Outro ótimo ponto positivo é a exploração do relacionamento homoafetivo retratado como algo real e não caricato, mais uma vez toca no assunto rejeição/aceitação, ainda que o tom seja leve. As Vantagens de ser Invisível é um filme adolescente, mas que não subestima seu espectador. Quem dera que todos os filmes juvenis fossem assim.