Cinema

[Crítica] Aspirantes

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Silencioso e curto, o novo longa de Ives Rosenfeld fala sobre um tema muito caro ao brasileiro, usando o futebol como pano de fundo para exprimir uma história tocante. Aspirantes vai na mesma esteira do antigo Esse Amor Que Nos Consome, não tanto em formato, mas muito em espírito desbravador e emotivo.

Junior, vivido pela revelação Ariclenes Barroso – que encanta a cada nova participação em filmes – é um jovem jogador de futebol, que demonstra na cena inicial seu gênio pouco fácil e agressivo, através dos frames de uma festa noturna, onde se envolve em uma mini confusão. O estado de espírito desalinhado prossegue na intimidade do rapaz, que faz descarga de caminhão durante a  noite a fim de angariar dinheiro para sustentar seu filho que está prestes a nascer.

O texto de Rosenfeld e Pedro Freire abarca de maneira magistral o ambiente machista e simplista do esporte bretão, com discussões tipicamente masculinas e com uma rejeição absurda a quem demonstra sentimentos, o que justifica o silêncio e comportamento casca grossa de Junior sempre que confrontado ou perguntado sobre como está. Mesmo a oferta de ajuda, por parte do seu amigo Bento (Sergio Malheiros), que tem uma melhor sorte na busca por talentos esportivos, é recusada de pronto, uma vez que o protagonista pretende conseguir seu sustento por méritos unicamente próprios.

Aos poucos o ambiente que aparentava perfeição e tranquilidade vai desmoronando, com o peso das responsabilidades começando a pesar, bem como o nível das discussões que ocorrem. Tudo se acalora, e mesmo nos diálogos agressivos e expositivos o enfoque é todo em Junior. Seu silêncio é o que predomina, é como se todo o entorno não valesse o esforço de captura da câmera, exceto o conjunto de emoções e sensações do jovem aspirante a jogador da Região dos Lagos.

As partidas de futebol têm um acompanhamento acústico interessante, usando os sons da bateria como base para toda a adrenalina e carga de stress inerentes ao certame, não tanto do jogo em si, mais da busca por uma trajetória mais brilhante, e claro, por dias melhores que aqueles. As reviravoltas do roteiro são cabíveis diante do drama que se avoluma, inclusive na dor que somente se manifesta nas expressões faciais da personagem.

Os gritos de incentivo de uma multidão imaginária servem somente para ratificar as prioridades de Junior, salientando qual é a pauta de seu repertório, quais são suas intenções com o futuro e seus sonhos. A vontade por evoluir e a forma como isso é conduzido dribla até os momentos de mornidão na fita de Rosenfeld, que cada vez mais evolui como diretor.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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