Crítica | Assassination Nation

O cinema sempre buscou congelar o tempo em tela, mas quando se fala de agora, os tempos são rápidos demais e as tentativas caminham a passos curtos. Assassination Nation talvez tenha encontrado a fórmula de congelar esse mundo que tudo parte do click numa tecla Enter: não se congela. O longa que foi comprado em Sundance pela produtora dos Irmãos Russo – os diretores de Vingadores: Guerra Infinita -, é a segunda direção de Sam Levinson e atira para todo lado quando o assunto é alfinetar as feridas mal cuidadas do modo de vida norte-americano, mas não que as críticas parem ali no continente de cima, Assassination Nation acaba falando com todos nós, mesmo que de forma desordenada.

Na cidade de Salem – em referência a histeria acerca das bruxas de Salem -, algumas autoridades começam a ter seus dados pessoais invadidos por um hacker e vazados na internet, mas o que inicia apenas com um político e o diretor da escola passa a atingir boa parte das pessoas da cidade. No colégio, Lily (Odessa Young) reage aos recentes acontecimentos com suas melhores amigas Bex (Hari Nef), Em (Abra) e Sarah (Suki Waterhouse) enquanto lida com seu péssimo namorado (Bill Skarsgard) e frequentemente envia fotos sensuais para o homem que ela nomeia de “Papai”. Não demora muito até que Lily se torne uma vítima dos vazamentos online e juntamente com suas amigas se vê no meio de uma onda de violência extrema que explode na cidade.

Assassination Nation começa avisando do conteúdo que estamos prestes a ter acesso: homofobia, transfobia, estupro, violência e masculinidades frágeis estão entre os gatilhos que o filme promete, e isso é o primeiro indício que assim como o mundo virtual a narrativa se apoiará nos exageros. O longa se desenrola no primeiro ato em sequências estilizadas que parodiam a seriedade caricata dos filmes teen e por isso, em primeira instância, ganha a atenção do espectador mais engajado, mas também deixa claro que não é uma produção das mais comuns. A narrativa é frenética e como já citado nesse texto, Sam Levinson parece compreender bem o lugar disso em um filme sobre o poder da internet, uma cena atropela a outra enquanto plots e questões são vomitadas na sua cara como um feed do facebook.

Nudez, vidas feitas de aparências, julgamentos rasos acarretados de comentários online, hipocrisia dos que estão no poder, violência gratuita, masculinidade frágil e armamento são algun mas das temáticas tocadas durante toda a experiência, mas indo para tantos lados que naturalmente Assassination Nation perde o peso. Tudo parece ser construído para complexidades que nunca chegam a acontecer, muitos desses temas permanecem unidimensionais até o fim, final esse que abusa do caricato e do discurso direto, onde está a maior parte dos gatilhos prometidos de início. Mesmo que o roteiro se perca, essa característica gráfica de toda a situação agrade aqueles que gostam de horror, há sequências muito bem filmadas, o filme em si é visualmente muito bem resolvido, a estilização extrapola mas acerta a maioria das vezes.

O elenco principal, formado pelas quatro amigas, é afiado e entrega algumas performances que lembram o ótimo Spring Breakers, Odessa Young e Hari Nef  têm as melhores cenas. Sam Levinson transparece em tela um ótimo trabalho com elenco e identidade visual, é bem intencionado a maior parte do tempo e instiga discussões pertinentes, tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil que recebe um novo governo em 2019, mas peca pelo excesso e por momentos manchados por uma certa pretensiosidade não muito bem-vinda. Assassination Nation nasce atual e arriscado, quase megalomaníaco, e deve ser assim ainda por um bom tempo.

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