Crítica | Borg vs McEnroe

A inveja é uma desgraça. Nenhum outro sentimento corrói outro com tamanha energia e êxito quanto a inveja. Uma peste desconstrutiva, ela testa qualquer laço e acaba com qualquer relação mundana que existia antes da sua perfídia invocação. Mais famoso exemplo disso no cinema recente, de uma década pra cá? A Rede Social, clássico de David Fincher eternamente injustiçado pelo Oscar (O Discurso do Rei, really?!) e recompensado pelo tempo, indo além de ser outra biografia de alguém famoso (como acabaram por ser os dois filmes acerca do Steve Jobs) para focar em especial na rivalidade histórica e digna de um romance nas telas dos criadores do Facebook, sinônimo das redes sociais que assolam o mundo digital ainda nesse começo de século.

Fincher, o espertinho, mostrou uma amizade se deteriorando mais rápido que castelo de areia tocado pela maré, em decorrência da ganância histriônica que cerca uma dupla ideia universitária abarrotada de possibilidades ultra lucrativas, sendo que no caso do ótimo Borg Vs. McEnroe, o cineasta Janus Metz nunca precisou lidar com a destruição de laços afetivos que aqui simplesmente nunca existiram, e sim com a boa e saudável competição esportiva sendo substituída pela competitividade que atiça a invídia maligna, apossando mais e mais os dois grandes astros homônimos do tênis mundial.

No mais, é um filme tanto pra quem é fã do esporte, quanto pra quem não se considera interessado por ele, garimpando os porquês e as consequências pessoais, não apenas profissionais dessa rivalidade que acabou ficando famosa entre o sueco Björn Borg e o americano John McEnroe. As entrevistas e os flashbacks: São os depoimentos na mídia e as reconstituições do passado que melhor constroem na narrativa muito bem fluída por Metz, sempre equilibrando drama e entretenimento de forma exemplar, um verdadeiro quadro duplo sobre as circunstâncias que viviam e alimentavam a garra e a psicologia dessas duas figuras um tanto parecidas no foco e na insegurança que compartilhavam, mas díspares quanto aos seus papéis no mundo do tênis, em 1980. Solitários e ‘vítimas’ de auto estimas duvidosas, Borg e McEnroe parecem viver em conflito constante com eles mesmo, sempre se pressionando, sempre se testando, o que resume a motivação dos atletas que a história nos apresenta.

Seja do tênis, do boxe ou futebol: Para o senso comum e a mídia que o infla, os profissionais sempre valem a última partida que jogam, ou quando muito as duas ou três últimas, e nisso a auto cobrança é sempre cruel – e fatal, quando não bem dosada. O filme encarna isso de uma forma verdadeiramente cinematográfica e elegante, elencando cenas e situações que demonstram verdades universais sobre o esporte ao invés de explicar ao espectador – algo muito, muito raro –, sem discutir nada, mas encarnando temas como relação com o treinador, as festas, a preparação ou o medo da derrota pré-partida de forma enérgica e verídica, jamais preferindo um tenista, ou outro. O que realmente importa aqui é entrar na mente de um jogador (dois, no caso), e interpretar a sua adrenalina, os seus impulsos e o seu percurso até ganhar ou perder o mitológico campeonato de Wimbledon, o mais antigo torneio de tênis do mundo.

McEnroe não parecia entender e suportar mais o peso de ser um grande atleta que o rival americano – pelo contrário. Seu jeito antiesportivo de ser, não aceitando derrotas é o motor da rixa que se dá com Borg, muito mais maduro e observador. O tenista com pinta de mau perdedor cai como uma luva para Shia Labeouf, conhecido em Hollywood por ser um ator extremamente difícil de se trabalhar e personificando, aqui, com primor inesperado a grosseria quase infantil de McEnroe, a ponto de, quando eles se enfrentam pela primeira vez, nós já sabemos do que ambos são capazes e já podemos prever seus comportamentos separados por uma simples rede. O McEnroe de Labeouf merecia mais atenção da temporada de prêmios, é verdade, assim como a montagem do filme, sempre preocupada com a dinâmica rítmica de uma história dividida e amparada por dois complexos atletas, seja usando seus uniformes ou não.

“Tudo o que eu fiz me trouxe a esse momento”, confessa Borg antes do clímax definitivo, aqui interpretado com sutileza e sensibilidade por Sverrir Gudnason, ator sueco que dá corpo e alma ao atleta. É aliás as cenas de vestiários que melhor interpretam esse lado confessional do lugar, onde atleta e treinador parecem se tornar amigos inseparáveis. Poucos são os momentos em Borg vs McEnroe que superam esses breves diálogos entre quem treina e é treinado, senão o silêncio final entre os dois rivais, sozinhos e lado a lado num banco, logo antes da partida decisiva e clássica em Wimbledon cuja final verdadeira pode-se assistir online.

Nisso, um parece ter nascido para enfrentar o outro, fazendo o oponente dar o seu melhor cujo confronto entrou para a história de todos os esportes. Mas o principal triunfo do filme, mesmo? Nos fazer compreender que eles não estavam naquela arena apenas um contra o outro, mas sobretudo para provar a si mesmos que mereciam pisar naquele gramado para disputar o título, quem sabe até ganhar, ou ainda: Virar melhores amigos um dia, quando toda a competitividade já tenha ido para o ralo, depois da chegada dos próximos queridinhos que a grande mídia elege, e adota, para si. Nenhum atleta é invencível, pois nenhum homem tampouco o é. Moral da história.

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