Cinema

[Crítica] A Bruxa

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A Bruxa 2

De todos os gêneros temáticos do cinema, o terror talvez seja o que tem maior facilidade para divulgação e propagação de filmes ruins, especialmente pela baixa dificuldade em produzir toda sorte de criatura amedrontadora ou plot repleto de sustos. São poucos produtos que transcendem a barreira do pré julgamento, a exemplo dos clássicos de William Friedkin, Stanley Kubrick e Roman Polanski. O ideal que A Bruxa de Robert Eggers é atingir este mesmo filão onde se encontram Bebê de Rosemary, O Exorcista, O Iluminado e Repulsa ao Sexo, utilizando um conjunto de lendas e temores tradicionais da literatura de horror, se valendo de contos orais e escritos para montar o seu texto.

O roteiro de Eggers foca em um clã cristão de nome jamais dito, que é afastado de seu vilarejo graças a um suposto pacto demoníaco. O patriarca William (Ralph Ineson) refuta esta possibilidade e sob protesto aceita seu exílio, levando sua esposa Katherine (Katie Dickie), três crianças e seus dois filhos mais velhos, Caleb (Harvey Scrimshaw), que desenvolve seus primeiros impulsos sexuais ligados a puberdade, e Thomasin (Anya Taylor-Joy), que começaria por ser os olhos do espectador e que evoluiria no decorrer do drama.

A crença no deus do cristianismo comanda a casa, pautando os desejos e anseios da família, exceção feita em partes a figura de Thomasin, que em sua fase de crescimento começa a questionar certas normas sobre como deveria ser seu destino. A partir da mudança para as proximidades de uma floresta bastante antiga, eventos esquisitos começam a assolar a família, deixando o sentimento de abandono divino, graças as catástrofes ocorridas.

Os infortúnios que acometem os cuidados da primogênita com seus irmãos não parecem ter ligação com a insatisfação que cresce em seu interior, ao menos não no começo. Com o desenrolar da trama, as possibilidades restringem as dúvidas de caráter a ela, apelando mais uma vez a associação do pecado à mulher, seguindo a tradição bíblica e do medievo, exemplificando de maneira bastante simples a fobia não só a criatura da bruxa como da mulher em geral, como detentora da iniquidade.

O temor se pauta não em sustos, e sim no anseio pelo proibido, ajudado demais pela ilusão causada através da ignorância provocada pelo fanatismo religioso. A Bruxa é um terror de época impactante, interessante a um modo que há muito não se via, utilizando pouco de momentos cômicos e quando se apela a isto, apresenta-se um humor negro, fino, cruel e escatológico. Passa longe de ser um filme de horror comum e é uma estreia muito promissora de seu realizador no campo de longas metragens, especialmente por discutir veladamente sobre a misoginia normalmente associada a religião cristã e a dubiedade da figura amedrontadora.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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