[Crítica] California

California 1

Incisivo e direto, o longa metragem de estreia de Marina Person demonstra, já em seus momentos iniciais, o caráter de descoberta a respeito da adolescência e juventude. Situado em 1984, o roteiro é focado em Estela (Carla Gallo), uma menina que intenta viajar finalmente para a Califórnia, local onde mora seu tio, vivido por Caio Blat. O repertório da moça é vasto dentro da exploração da cultura pop, com enfoque em seu amor por cinema e pelo clássico Blade Runner, e predileção pela música de David Bowie.

Person tem em sua família uma tradição cinematográfica muito prolífica, uma vez que é filha de Luis Sérgio Person, tradicional diretor de São Paulo Sociedade Anônima. Seu cinema é intimamente ligado ao do pai, a começar pelo média metragem anterior, documentário focado no pai. Apesar de tocar também nos momentos históricos políticos brasileiros, visando a Ditadura Militar como Luis Sérgio fez em O Caso dos Irmãos Navas (de forma velada, no caso do clássico), sua abordagem na fita atual é diferenciada e com uma identidade própria, com claras referências ao tom que Larry Clark dava aos seus dramas juvenis, ainda que não haja uma sexualidade tão explícita quanto em Kids e suas outras películas.

O imaginário de Estela (ou Teca) envolve uma parcela bastante careta da sua família, em destaque para  pai vivido por Paulo Miklos (ironicamente) e por seu tio que vive como crítico musical nos EUA. Logo, a viagem de Estela é desmarcada, por que seu parente vêm ao Brasil, inesperadamente. Sua vida amorosa também é dividida entre dois meninos bem diferentes, um rapaz comum e ordinário, e do outro lado, JM (Caio Horowicz), misterioso, rebelde e repleto de nuances.

O modo como as meninas discutem sexo é franca, repleta de devaneios, viagens e palavras típicas da imaturidade. A discussão passa a ser mais madura e menos burguesa quando JM abre diálogo com ela, falando abertamente sobre caretice, personalidade e pulsão. A abordagem cinematográfica de Person é corajosa, ao expor os corpos de seus atores sem pudor ou receio, conduzindo o descobrimento e desabrochar sexual, tratando em paralelo as consequências do sexo, levando em conta até a burrificada culpa a que se atribuía a quem era sexualmente ativo em pleno tempo de repressão.

A jornada de Estela é ligada ainda à despedidas e trocas de cartas, de amores distantes, que apesar de não presentes fisicamente, fazem bem a jovem mulher, alimentando-a de um modo que as pessoas comuns e ordeiras. Teca não pertence ao mundo em que vive, talvez por isso ocorra a hesitação por parte dos que lhe causam furor em usar tal apelido, pois sua identidade parte do nome civil que tem, distanciando-se da menina, para desembocar em uma mulher como um grande potencial pela frente. O modo com a diretora escolheu conduzir seu Califórnia só torna tudo mais singelo e interessante, equilibrado e urgente quando necessário e didático quando se exige.