Crítica | Caminhos Perigosos

Mais de dez anos após o mestre Luis Buñuel tecer a marginalidade e a podridão social nas ruas do México, no meio do século, no insuperável clássico Os Esquecidos, em 1950, foi a vez de Francesco Rosi apresentar do mesmo modo cru e objetivo as motivações dos vários tipos de brutalidade humana, e a degradação do seu habitat relativo em O Bandido Giuliano, exemplar italiano um tanto esquecido ao longo da história da arte. Inserido em um forte cenário histórico, é possível desde o início da projeção atestar sua influência para um sem-número de produções que viriam depois, inclusive mais famosas e que também reproduziram a efervescência do filme de Rosi, tais quais os ultra realistas O Poderoso Chefão – Parte II, Tragam-me a Cabeça de Alfonso Garcia, e o primeiro nocaute de Martin Scorsese, um tal de Caminhos Perigosos.

Este foi basicamente um filme necessário para o próprio realizador, sendo uma espécie de desabafo cruelmente sincero da realidade que ainda vivia, na implacável Nova York dos anos 60, 70 e 80, em paralelo a tudo aquilo que sua psique gravou ao longo de sua vida em meio à loucura nova iorquina daquela época. Não por à toa, Scorsese soube como ninguém eleger seus filmes favoritos para a Sight and Sound, em 2012 (O que inclui O Bandido Giuliano, que ele tanto venera), baseando-se apenas em critérios pessoais de uma formação de vida que nunca o abandonou, mas que de fato o marcou, realmente. Tanto que Hugo se tornou o corpo estranho de sua produção justamente por não conter a violência urbana tão esperada, diria até previsível quando o assunto é Scorsese. E foi em Caminhos Perigosos onde tudo começou (inclusive a sua lendária parceria com Robert de Niro, também em plena ascensão de carreira, ambos filhos da Big Apple cuja explosão cultural parecia rivalizar com a enorme decadência social do lugar).

Ou Mean Streets, mesmo. Ruas Malvadas, num título original mais fiel a intenção do autor em mostrar o umbral americano aonde sobrevivia. Aqui, seguimos de perto um grupo de amigos (Harvey Keitel e De Niro, ambos ainda sem um pelo na cara) pelo submundo da metrópole com ares de falência, e danação que chamam de sua (eles só têm Nova York), em ruas que parecerem eternos becos sombrios, numa verdadeira selva de concreto raivosa onde é difícil confiar até na própria família, quiçá nas amizades que acontecem e se desfazem na violência que assola o passo e a alma de todos. Como o escritor Charles Dickens já descreveu, “era o melhor dos tempos, e o pior dos tempos”, e enquanto Coppola mostrava a glamourização da criminalidade nos dois “Chefão”, Scorsese enfiava a mão no lixo, e revirava, renegando quaisquer pudores.

É muito complicado apontar o seguinte, principalmente numa carreira cuja visão de autor sempre foi de eterno tarado e apaixonado pelo Cinema, mas talvez foi em Caminhos Perigosos que Scorsese demonstrou mais vontade, cega e absoluta de pegar uma câmera e contar uma história. Filma como se não conseguisse mais dormir sem fazer isso, é realmente uma fome de Cinema memorável. Alguns podem chamar de escapismo, outros de amor puro e simples pela arte que iria produzir e se devotar, dali em diante. Falemos o que quisermos, mas é impossível, seja o(a) espectador(a) quem for, passar indiferente pela energia impressa aqui em cada frame frenético editado Sidney Levin, montador que faz um excelente trabalho ritmado nas “aventuras” desses cavaleiros do asfalto (como o filme é porcamente chamado em Portugal), sem ainda Scorsese poder contar com sua companheira de longa data, a veterana Thelma Schoonmaker, a famosa montadora de Touro Indomável, O Aviador, Os Infiltrados, etc.

É notável sobretudo a exposição de duas cores distintas na construção pictórica de um mundo realista de criminalidade, drogas, correria e traição. Um olhar imagético afiado pela composição de quadro, e pelas prerrogativas mais sofisticadas de uma narrativa, dividido entre o preto do submundo e o vermelho que dele verte e explode em repentino, visto em celuloide como se cada ponto rúbeo fosse um sol escarlate exclamando vários sentidos ambíguos na tela. Sentidos esses que Scorsese nunca ignorou em sua obra, e só podemos agradecê-lo, cinéfilos ou não, por tamanha honestidade consigo, e conosco. Nas palavras do próprio: “Quando contratei Keitel pela primeira vez, o achei parecido demais comigo, e mesmo ele sendo um judeu da Polônia a gente tinha muito em comum. Nossas famílias também esperavam que a gente fosse mais respeitado, mas tinha alguns atores nesse filme bem difíceis de se lidar, gente bem ruim. E com eles eu aprendi a lidar, também”, afirma o cineasta no livro Scorsese on Scorsese, da Faber & Faber (sem tradução para o português). A gente aprende, Marty. A gente aprende.

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