Crítica | Creepshow

Creepshow foi o projeto que lançou simultaneamente um filme e uma história em quadrinhos. A obra cinematográfica foi dirigida por George Romero e roteirizada por outro grande mestre, Stephen King, além de ter como um dos produtores Richard Rubinstein. Interessante notar que este é um dos pouquíssimos casos em que Romero dirige sem roteirizar. Mesmo assim, a dupla Romero-King funcionou muitíssimo bem.

O filme começa mostrando um pai repreendendo o filho (Joe King, filho de Stephen) que está lendo uma revista em quadrinhos de conteúdo duvidoso.  Essa revista é, adivinhem, Creepshow, que mostra cinco histórias de terror com muita violência e bizarrice. O pai joga a revista no lixo, e a partir daí, o filme começa a mostrar as cinco histórias. Vários clássicos do terror seguiram esse formato de contar várias histórias num único filme, como por exemplo Black Sabbath, do saudoso mestre italiano Mario Bava. E não é pra menos, Creepshow referencia, principalmente, os quadrinhos de terror dos anos 1950, em especial aqueles publicados pela EC Comics. Tanto que a revista em quadrinhos foi desenhada por um artista da editora. A decisão de publicar o quadrinho mostrado no filme foi uma sacada genial, e vale muito a pena conferir as duas obras, pois cada uma tem seu charme macabro e algumas diferenças.

Conforme já dito anteriormente, o filme conta as cinco histórias do quadrinho, Creepshow. Cada segmento é desenvolvido separadamente, não havendo qualquer ligação entre eles. Podemos considerar cada história um episódio de uma série. Para o formato quadrinhos, essa estrutura funcionou um pouco melhor, pois cinco histórias em um único filme, por mais que sejam bons, perde-se o dinamismo da obra e torna-se cansativo ao final. Se este for o seu caso, basta assistir um ou dois segmentos por dia, e tudo se resolve.

A primeira história, Father’s Day (“Dia dos Pais”), mostra uma senhora (Viveca Lindfors) que, na referida data, visita o túmulo do pai às quatro horas da tarde, todos os anos, desde a morte do genitor. Ao longo da narrativa, descobrimos a causa da morte do pai e, ao final, somos brindados com momentos de terror clássico. Destaque para os efeitos práticos e para a maquiagem sempre fantástica de Tom Savini.

O segmento The Lonesome Death of Jordy Verrill (“A Solitária Morte de Jordy Verrill”) tem uma abordagem mais cômica que resulta em uma desgraça ao personagem. Tudo começa quando um pequeno meteorito cai na propriedade de Jordy. Ele não toma os cuidados necessários ao manipular o material alienígena e acaba assinando seu atestado de óbito. Destaque para a atuação horrenda, porém divertida, de King, que consegue dar um ar de boboca e inocente a Jordy.

A seguir, Something to Tide You Over (“Indo com a Maré” na tradução dos quadrinhos), já possui algo interessante no título original, que pode ser traduzido de inúmeras formas. É um jogo de palavras divertidamente mórbido, onde “tide” pode significar “maré”, mas a expressão “tide you over” seria algo como “sobreviver mais um pouco”, “passar por uma dificuldade”, ou ao pé da letra, “ser encoberto pela maré”,o que faz muito sentido no contexto do segmento. O grande destaque aqui é Leslie Nielsen, que vive um marido traído buscando uma forma extremamente sórdida de vingança: enterrar a esposa e seu amante na areia da praia, apenas com a cabeça exposta, e esperar a maré dar conta dos dois. Mas tratando-se de Romero e King, sabemos que a história não irá terminar por aí.

The Crate (“A Caixa”) traz o seguimento mais longo e com maior desenvolvimento de personagens. O zelador da universidade (Don Keefer) descobre, por acaso, uma caixa guardada embaixo de uma escada protegida com uma grade. Ele chama o professor Dexter Stanley (Fritz Weaver) para ajudá-lo a tirar a grade de proteção e tomar posse daquela caixa. Nela, está escrito “Expedição ao Ártico” com data do século XIX. O que uma caixa está fazendo guardada ali por mais de um século? Aqui teremos belas cenas de gore utilizando uma iluminação bem exagerada para causar o clima de horror, o que foi reproduzido na história em quadrinhos. Efeitos práticos e muito sangue ilustram este segmento e vai agradar todos os amantes do terror clássico e do trash.

O quinto segmento, They’re Creeping Up On You (algo como “Estão rastejando em Você”, ou ainda “Elas vão te Aterrorizar”), é o único levemente chato, pois a história e personagens, apesar de trazer ideias interessantes, mostrando o pior lado do ser humano, não tem um ritmo muito bom. Entretanto, o protagonista do segmento, vivido pelo saudoso E.G. Marshall, é detestável e consegue de forma efetiva causar repúdio ao espectador. Além do que, teremos as cenas mais memoráveis de todo o filme: baratas. Sim, milhares de insetos repugnantes dão vida aos momentos de grande aflição do personagem. São milhares de baratas reais, efeitos práticos sensacionais, sons asquerosos e a cena final, com certeza, é uma das coisas mais fantásticas já feitas no cinema de horror.

Entre os segmentos há animações bem legais, o que aproxima o filme da obra em quadrinhos. Além disso, várias cenas possuem elementos de histórias em quadrinhos, seja desenhos ou até os quadrinhos em si. Ao término dos segmentos, voltamos à “realidade” para mostrar novamente a família do jovem garoto. Teremos uma brincadeira com as propagandas contidas no quadrinho e um desfecho sinistro e trash devido a uma atitude peculiar do jovem garoto. Por mais que cinco histórias possam cansar um pouco, o resultado final é uma belíssima homenagem não só a EC Comics, mas também aos quadrinhos e cinema clássico de terror.

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