Cinema

[Crítica] Curtindo a Vida Adoidado

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Os primeiros minutos de Curtindo A Vida Adoidado são uma síntese do cinema de John Hughes, habitados por seres debochados, despreocupados e que sabem como viver a vida. O Ferris Bueller de Mathew Broderick consegue ludibriar seus pais com uma expressão sonsa e divertida, que divide opiniões quanto ao caráter desse tipo de trapaça, usando sua irmã Jeanie (Jennifer Grey) como ser discordante, resumindo ali um estilo de vida mais caxias, incapaz de entender com graça as atitudes do personagem carismático.

O primeiro aliado na jornada de Ferris é o público, que o compreende e trava com ele uma diálogo franco, como se não houvesse barreiras entre espectador e personagem. Com receio de não ter mais êxito em suas enganações, o rapaz quer fazer aquela folga das aulas valer a pena, e por isso, chama seu amigo Cameron (Alan Ruck), para acompanha-lo em sua aventura, a despeito até do cansaço e desânimo do rapaz certinho.

O cenário pensado por Hughes é todo fantástico, a começar pelo núcleo escolar, que se divide em pontos tão dissonantes que surpreendem por viverem em paz. A classe do professor de economia vivido por Ben Stein é um misto de morosidade, repetição resumidos em método de aula completamente sem dinâmica, como é comum para muitos docentes dos primeiros anos escolares. Já na direção habita o senhor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que faz o sujeito adulto, recalcado e maníaco por organização, que movido pela inveja, antagoniza seriamente o herói da jornada, servindo de perseguidor do mesmo.

Todos os alunos são mostrados entediados durante o decorrer das aulas,  e poucos conseguem fugir destes eventos obrigatórios, exceção feita a Sloane Peterson (Mia Sara), que é liberada para atender a morte de sua avó, momentos este que produz uma das cenas mais tensas para Rooney, onde o educador é enquadrado em uma das travessuras de Cameron/Bueller. O modo como Hughes conduz a cena envolve closes nos olhos, suor frio e desespero, em uma edição frenética, que alude a insegurança não só do sujeito de meia idade, mas também dos garotos que pregaram a peça.

Mesmo diante das indiscrições que comete, Bueller faz questão de justificar seus maus atos através de uma moralidade própria, como quando convence seu amigo a usar a Ferrari seu pai, apelando para a apreciação de bens materiais como desautorização do sujeito, fazendo do legítimo dono da máquina não merecedor o dom que tem. A desconstrução do ideal conservador familiar passa também pela troça que fazem com Rooney, ao se deixar flagrar beijando Sloane, ao interpretar o pai da moça que a vai buscar sua cria.

É curioso o modo os adultos são mostrados no filme. Os pais de Bueller são bastante crédulos, sem a menor ideia do que o filho faz, alienados até em relação a quantidade de mentiras que lhe são entregues. Os pais de Sloane não são citados, mas são tão presentes no cotidiano escolar que ninguém da diretoria sabe identificar sua voz. Já os de Cameron não são apresentados também, mas geram no rapaz um medo tão grande que brincar de suicídio parece uma ideia plausível, ao ele notar que a quilometragem da Ferrari está bastante alta. Cameron é um garoto prisioneiro de suas próprias neuras, e a origem desses problemas certamente tem raízes na criação que recebe, aproximando os pais dele como figuras mais semelhantes ao vilão clássico dentro da jornada vista no roteiro de Hughes, incluindo aí uma auto estima praticamente zerada, em um garoto que sequer tem maioridade.

Talvez o fato que faça o filme ter essa aura mágica em volta de si esteja na dedicação de Broderick ao papel título, combinando a perfeição com o jeito descompromissado do menino. Outro fator interessante é o argumento de John Hughes, que consegue mostrar uma história carismática, engraçada e que até tem uma mensagem mais profunda, cuja trama ainda pode ser consumida em um nível mais superficial, graças a todo o carisma dos envolvidos no filme.

O destino parece ajudar o moço travesso a encobrir seus rastros para – mais uma vez – enganar os seus pais, os mesmos que tiveram a sua frente e não reconheceram o próprio filho caçula. Mesmo com toda a falsidade de suas ações, Bueller consegue inspirar muitos, especialmente os que participam da boba campanha de Save Ferris, uma anedota que tangencia o plot principal e que mesmo sem acrescentar muito, faz toda a mitologia ao redor do filme ganhar ainda mais significado, ultrapassando os fatos em tela com carisma o suficiente para capturar a atenção do espectador externo também.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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