Crítica | Defying The Nazis: The Sharps’ War

Documentário de 2016, dirigido por Ken Burns e Artemis Joukowski, Defying the Nazis: The Sharps’ War apresenta a historia de um religioso abnegado, Waitstill Sharp e sua esposa Martha Sharp, duas pessoas que ajudaram refugiados a fugir das garras dos nazistas alemães nos anos quarenta. Munidos de um diário lido durante a execução do filme por Tom Hanks, os horrores do III Reich são acompanhados de imagens dos políticos poderosos da época, pontuados pela musica de Sheldon Mirowitz.

O tom do filme é um pouco piegas, mesmo o trabalho de Mirowitz é mal encaixado e faz o sensacionalismo sobressair ao falar da associação de Sharp com os pastores dos Estados Unidos, bem como sua infância/adolescência. Ao mesmo tempo, detalha bem a trajetória do reverendo, mostrando que em 1933 ele foi ordenado ministro, e que esse foi coincidentemente o ano que Hitler ascendeu ao posto de chanceler na Alemanha, e a partir daí houve uma caminhada de descendentes alemães rumo a sua Terra, novamente.

Todo o processo de ajuda que Sharp prestava aos judeus refugiados é muito bem detalhado, e sua historia de solidariedade faz lembra um bocado da biografia de Oskar Schindler, embora seja bem menos famosa a história. O filme sofre com uma dramatização um pouco porca, tudo soa meio melodramático e sensacionalista e a falta de apego a realidade faz sofrer um pouco a jornada audaciosa de Waitshill e Martha Sharp, mas o fato de exagerar nessa carga demonstra um bocado do receio que os judeus tinham em serem pegos.

O longa é protocolar e formulaico, possui muitas entrevistas de vítimas dos desmandos e da crueldade dos nazistas, no entanto, mesmo dentro dessa obviedade há êxitos, em especial no que toca remontar a memoria de pessoas que foram abnegadas. O conceito de heroísmo normalmente é associado a quem luta fisicamente com algo ou alguém maléfico, e não com quem resiste ou presta apoio aos flagelados, e desconstruir esse conceito é algo importante para os diretores. Se em toda a forma há equívocos, nesse intuito não há nada de errado.

Incrivelmente, próximo do final o filme ganha um novo fôlego, com os relatos de Sharp como planejador de fugas. Ele usa ardis para despistar os soldados de Hitler na Europa, e acerta a maioria deles, de certa forma associando esse tipo de comportamento com os de muitos membros da guerrilha durante a época da Ditadura Militar no Brasil, que também tinha que improvisar planos no intuito de manterem-se vivos.

A colaboração dos dois foi voluntária, e sequer seus filhos sabiam desses atos até um certo tempo, só foram descobrir com o biografo que estudou a carreira eclesiástica do pai, dado que ambos faziam segredo. Ambos foram muito marcados por isso, e vieram a ter atritos que resultou num divorcio nos anos cinquenta, mas o ideal cristão dos dois os fez serem honrados pelo Estado de Israel, o mesmo que hoje desperta fascínio de boa parte da extrema direita, que não enxerga na perseguição aos judeus nenhum paralelo nem com sua ideologia e nem com os métodos pregados por boa parte de suas lideranças ou da parte dos que são admirados pelos mesmos, como o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ao menos, o filme valoriza pessoas que lutaram de fato contra a opressão dos fracos e desvalidos, e é dedicado aos que não escaparam das mãos dos extremistas da direita alemã.

Facebook – Página e Grupo | Twitter Instagram | Spotify