Crítica | Depois da Chuva

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Em 2013, uma imensa quantidade de pessoas no Brasil saíram às ruas bradando pelos ideais democráticos, em um dos momentos políticos mais emblemáticos na recente história brasileira. Nesse contexto, Depois da Chuva, da dupla iniciante Cláudio Marques e Marília Hughes, vem abrir espaço para uma sutil conversa sobre democracia.

Ambientada na Salvador de 1984, na transição dos momentos finais da ditadura militar para as eleições diretas, acompanhamos o dia a dia de Caio (interpretado pelo novato Pedro Maia), um jovem de ideologia anarquista que enfrenta no seu cotidiano as dúvidas e questões morais da adolescência, seu crescimento e os medos e anseios do futuro desconhecido.

Caio se expressa pela revolução, participando de rádios piratas e bandas punk, ao passo que enfrenta os sentimentos decorrentes da ausência de seu pai e de sua desatenciosa mãe. As representações desses momentos, remetendo aos sentimentos circunscritos do próprio período histórico retratado, são expressas por meio de cenas fragmentadas e caóticas. Reflexos de Caio, de seus amigos e do espírito libertário.

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Posteriormente, a fuga se converge junto ao amor de sua amiga Fernanda (Sophia Corral), momento este em que o compasso do filme ganha uma nova dimensão, mais calma e mais reflexiva, contrapondo a anarquia defendida por Caio com as incertezas da democracia porvir.

O grande trunfo de Depois da Chuva é a liberdade como Marques e Hughes conferiram a seus jovens atores ao expressar todas essas metáforas em sua atuação. Pedro Maia e Sophia Corral se destacam com uma atuação natural, marcada por sutilezas e familiaridade. Não são meros personagens recortados de um período passado, mas estão ali vivendo aquele turbilhão de sentimentos.

O filme possui um compasso lento, e talvez esse seja o único problema da forma como a narrativa é contada. Enquanto Caio rouba a cena e tem sua personalidade esmiuçada, boa parte dos outros personagens que interagem com ele não são feitos da mesma forma, como sua própria mãe ou parte de seus amigos que compactuam com seus ideais políticos. De qualquer forma, nada disso é suficiente para retirar a emoção das demais sutilezas que o filme apresenta como um todo.

Depois da Chuva é um filme que retrata uma época histórica marcada pelo extremismo e pela violência através de uma história sutil e reflexiva. Até hoje, a democracia é uma ambiguidade, assim como o amadurecimento e a nossa própria noção do existir. Depois da Chuva é reflexivo em sua ambiguidade, nas suas dúvidas e na busca que Caio tem em sua vida.

Texto de autoria de Pedro Lobato.