[Crítica] Depois da Tempestade


“Dizem que os grandes talentos florescem tarde”

O cinema oriental traz entalhado em si um forte histórico de cineastas e obras brilhantes, uma corrente que vive se renovando e pelo jeito não chegará ao fim tão cedo, não enquanto autores como Hirokazu Koreeda existirem. Por uma questão cultural, os japoneses trazem consigo um forte respeito pela ancestralidade e todo aprendizado que dela pudermos extrair; sendo assim, não é de se espantar a forte influência de Yasujiro Ozu  –  um dos maiores diretores do Japão – nas obras de seu conterrâneo Koreeda.

Em Depois da Tempestade (Umi yori mo Mada Fukaku), acompanharemos a saga de Ryota (Hiroshi Abe), um escritor fracassado, divorciado, que busca seu sustento trabalhando como detetive. Apesar de se encontrar em um forte ostracismo, Ryota é dono de uma personalidade otimista tocante que apesar de seus defeitos busca à todo custo se reconciliar com seu passado, consigo mesmo e com seu filho. Koreeda não tem pressa para nos introduzir aos personagens ou mesmo ao cerne da questão, porém o faz de forma incisiva e no momento certo, demonstrando para o público a profundidade de seus personagens e suas respectivas individualidades.

Se posicionando como fio condutor da narrativa desde o primeiro minuto, Ryota é bruscamente posto em conflito quando se dá conta que permanece estagnado enquanto todos ao seu redor estão seguindo em frente com suas vidas. A conflagração familiar é exposta com bastante calma, entre diálogos cálidos e reflexões silenciosas, fugindo completamente de dramalhões histriônicos, indo na contramão dos vícios Hollywoodianos que insistem em demonstrar de maneira tão errônea os “reais conflitos familiares”, renegando por vezes à beleza cotidiana existente no dia a dia.

O clímax de Depois da Tempestade está atrelado a ideia de que uma reunião em família numa noite chuvosa pode purificar, depurar e reconstruir através do diálogo. Questões que após uma noite de sono serão renovadas no dia seguinte quando amanhecer e o sol florescer, ou seja, um passo de cada vez. A rotina também tem seu encanto.

Texto de autoria de Tiago Lopes.