Cinema

[Crítica] Dívida de Sangue

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Clint Eastwood sempre sentiu-se confortável com a proximidade da lei ou dentro de um senso moral que atravessa diversas personagens desde seu início de carreira até em produções de sua maturidade.

Em Poder Absoluto e Crime Verdadeiro, Eastwood já demonstrava seu gosto por narrativas policiais de conteúdo político ou investigativas, histórias que sempre apresentavam elementos dúbios que se revelavam ao longo da história.

Baseado na obra de Michael Connelly, Terry McCaleb é um ex-detetive aposentado, recém saído de um transplante de coração. Ao ser abordado por Wanda que lhe pede que investigue o assassinato da irmã, o policial teria muitos motivos para negar. Exceto que está vivo graças ao coração da vítima assassinada. A procura de trazer conforto a irmã, o investigador assume uma investigação informal sobre o caso.

Divida de Sangue é um tradicional filme policial. Apresenta as circunstâncias do crime no início e no decorrer da trama é realizada a investigação. Não há arroubos narrativos, reviravoltas, nem vilões que chamam a atenção como no recente A Sombra do Inimigo. Mas uma investigação voltada a procura dos detalhes que conseguem produzir pistas.

Eastwood escolheu para si um papel que condiz com sua idade. Seu detetive repete a personalidade de moral rígida e de pouco humor que permeia toda sua obra e foi composto de maneira exemplar em relação ao personagem do romance de Connelly. É um homem que ainda deseja estar ativo no trabalho mas impedido pelos limites físicos.

A atmosfera da trama chega a resvalar em alguns momentos nas clássicas narrativas noir, com direito a trilha sonora regada a jazz e cenas que privilegiam a luz ambiente, dando um aspecto mundano a investigação.

O filme é bastante fiel ao romance mas, devido a sua extensão, opta por encerrar a investigação antes sem perder o clímax que tem boa concepção mas poderia ser melhor executado se aprofundasse no sadismo doentio do assassino. Ao preferir deixá-lo mais simples, a trama eclode em uma desnecessária cena de perseguição policia e bandido.

A partir deste filme, Eastwood produziria um longa metragem a cada ano. A atmosfera e a reflexão sobre a natureza humana é repetida com mais precisão e peso em Sobre Meninos e Lobos, outra narrativa do gênero, e um dos melhores filmes do diretor.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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