Crítica | Domingo

Domingo é um filme de Clara Linhart e Fellipe Barbosa que segue uma linha narrativa e de estilo muito semelhante a de alguns filmes sobre dramas familiares produzidos na Itália, França e outras praças europeias. Seu começo mostra seu Zé (Clementino Viscaíno), o caseiro da família escolhendo uma ovelha para matar e servir aos parentes, que formam uma família grande, que já morou naquela fazenda mas que está dispersa, quase toda morando na capital gaúcha Porto Alegre. O reencontro naquele sábado, que parece domingo é bucólico e claro, regado de dissabores e desavenças.

Os núcleos do filme se mesclam em alguns pontos, o casal Bete (Camila Morgado) e Nestor (Augusto Madeira) vivem com os filhos do homem na casa velha e lidam com os empregados de maneira íntima, ainda que aconteça ali as tratativas comuns entre patrões e criados. O elemento de fora que mais traz problemas é a matriarca, Laura (Itala Nandi), uma senhora rancorosa, dominadora e que acha que ainda tem algum poder sobre os filhos. De pano de fundo há a posse em 2003 do presidente operário Lula, e um misto de apreensão por parte de alguns membros da família abastada, e de esperança por parte dos criados em especial de Inês (Silvania Silvia) e sua filha, que mesmo sendo silenciosas, vão alimentando a vontade de largar aquela casa e aquele grupo familiar.

O filme e conversa muito com Entre Nós, de Paulo Morelli, embora a discussão claramente seja sobre pessoas mais velhas, maduras e resilientes que no filme de 2013. As semelhanças estão na forma delicada com que o roteiro trata os personagens desse sub gênero dentro do chamado filme coral, em que não há um personagem principal e sim um protagonismo multi compartilhado. Evidente que algumas subtramas são mais divertidas e engraçadas que as outras – se destacando normalmente o papel de Morgado, que faz uma dona de casa mimada e porra louca – mas praticamente todos os membros da família tem ao menos um momento em que são o maior foco.

O filme tenta forçar uma trilha sonora de rock gaúcho, utilizando os Engenheiros do Hawaii como referência e isso por mais forçado que seja, chega a ser engraçado. Até essa artificialidade serve a trama, pois evidencia que a paz instaurada naquele grupo de pessoas é bastante frágil e falsa, tão fake e anti natural quanto uma menina de 15 anos em anos do novo milênio encantada por Humberto Gessinger e sua banda.

O pai agressivo com o filho, a sextape da madrasta, o patrão mimado e metido a abusador, o flerte entre primos, as indiscrições do professor de tênis, o amor proibida entre patroa e o antigo funcionário fazem parte de um universo que pode parecer fantasioso mas que reúne algumas particularidades com situações que já ocorreram na realidade, tendo esse conjunto de eventos  reunidos no mesmo grupo de convivência e conveniência, melhor aproveitadas evidentemente por ter  uma história engraçada e extremamente carismática embalando essas situações.

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