[Crítica] Elle

elle

Paul Verhoeven é um diretor autoral, cuja filmografia possui uma marca de peculiar visceralidade. Foi assim no início de carreira ainda na Holanda, e também na fase em que fez filmes blockbuster americanos. Em todo o tempo a ironia e Inteligência ácida estavam presentes em seu cinema, mesmo nas películas menos inspiradas. Analisar Elle e as situações que envolvem a personagem de Isabelle Huppert sem levar isso em conta é um exercício de futilidade e as intenções do realizador passam exatamente pelo choque e pelo debate a respeito das consequências dos atos humanos mais nefastos.

Huppert interpreta uma mulher forte. Sua Michèle Leblanc é CEO de uma empresa de videogames, mas sua primeira cena ocorre dentro de sua casa, com a fuga de um malfeitor que abusou sexualmente da mesma. Depois da situação traumática, a mulher busca tentar viver seus dias normais, sem externar para ninguém de seu convívio diário ou esporádico o ocorrido. Sua postura é a de tomar precauções para que a desgraça que lhe ocorreu não se repita, mas não há qualquer instinto de se colocar em posição de fragilidade ou qualquer sensação que o valha.

O segredo não dura muito, e a mulher finalmente conta para alguns conhecidos o ocorrido. O sendo de gravidade e de receio ocorre nos que orbitam a sua vida, nunca atingem a ela. A digestão da violência que sofreu é executada de um modo sentimental e curioso em absolutamente toda a exploração da dor e das possibilidades, com recorrência da mesma cena em ângulos e tomadas diferentes, que começam a se modificar ligeiramente no início para depois mudar por completo, mostrando ações completamente diversas das cenas originais. O intuito do diretor é o de remeter a maturação do trauma e as reflexões que uma pessoa violentada normalmente tem, incluindo nessas fantasias até a possibilidade de uma reação que supostamente impediria a violação.

É bastante comum associar ao criminoso o desejo de retornar à cena da contravenção. Isso acontece também com o violador de Michèle, que faz questão de cercar sua vítima, adentrando em sua intimidade não só em vias sexuais, mas também de constrangimento através do trabalho, em situações que soam abusivas também, ainda que em grau menos grave do que os caminhos que usou no início do filme.

David Birke traduz em seu roteiro a questão de núcleos que também estava presente no livro de Philippe Djian, no qual se baseou o filme. Leblanc não vive somente a sua vida, uma vez que interfere drasticamente na rotina de seus familiares, amigos e conhecidos. O poder está em suas mãos, o tempo todo, se tratando de uma mulher dominadora e consciente de suas capacidades de manipulação, sedução e domínio.

Os últimos momentos são dedicados a tentar dar uma solução para o embate entre vulnerabilidade, submissão e dominação. Elle possui uma misancene típico dos filmes de Verhoeven, e expõe a óbvio questão de discussão da dissimulação e dos detalhes sociais mais íntimos do ser humano. O uso da mulher como personagem central desta trama macabra faz tudo ficar ainda mais grave, atalhando algumas questões empáticas ainda que não descuide do comentário total a respeito da sociedade e suas mazelas, além de discorrer sobre necessidades básicas de cada um como a carência típica da solidão em contraponto a cautela. A riqueza do argumento inclui também uma interessante desconstrução do conjunto hipocrisias que habitam até boa pensamento progressista, uma vez que traz um assunto caro e grave sem apresentar soluções simples e ordeiras, deixando para o espectador a digestão e conclusão sobre todo o ocorrido, estabelecendo então um rico debate que não deveria ser desconsiderado em momento algum.