Crítica | Em Chamas

Em Chamas é um dos chamados filmes de reencontro, onde a tônica dos eventos gira em torno basicamente de retornar a memória dos personagens a um encontro com gente do passado dando vazão assim a novas experiências e sentimentos. A história conduzida por Lee Chang-dong mostra o entregador Jong-soo (Shin Hae-mi) em um dia de trabalho, quando encontra com Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma antiga amiga que já foi bastante próxima, mas agora está a caminho do exterior.

Jong-soo se compromete  a cuidar do animal de estimação da moça, um gato, e antes dela ir eles se envolvem sexualmente, e esse fato torna ainda mais estranhos os  eventos que vêm a seguir. O modo que Lee escolhe dramatizar os eventos evidencia um cuidado enorme com os detalhes sentimentais, revelando as camadas mais complexas da história de maneira lenta, sem expor as intenções do roteiro logo de cara, até para fazer o espectador entender toda a atmosfera proposta e compreender que são e o que fazem os personagens ali, a duração de quase 150 minutos ajuda a massificar essa ideia.

Um novo elemento é posto na equação, um rapaz chamado Ben (Steven Yeun, o Glenn de The Walking Dead) um rapaz que ela conheceu na Africa, sujeito esse com manias e costumes incomuns, seu linguajar é diferenciado, ele chama seu próprio alimento de sacrifício, além de guardar consigo alguns artigos femininos, que não se sabe se são seus ou de outra pessoa. Jong começa a se aproximar dele, para entender o que passa ali, movido por algum sentimento ou sensação que não é em um primeiro momento revelado.

A obsessão do personagem principal extrapola (muitos) limites do aceitável, envolvendo perseguição e observação de todos os hábitos do sujeito, em uma paranoia digna dos filmes mais cínicos de Alfred Hitchcock, como Janela Indiscreta, embora a motivação desse personagem seja diferenciada em caráter da que James Stewart carrega, assim como os rumos que a trajetória de Jong toma.

A face benevolente de Ben é tão corretamente construída que mesmo quando ele aparentemente está movido por algum ato estranho ou que meramente pareça falso fica difícil julga-lo como se fosse um sujeito dissimulado. Ele é extremamente agregador, pacifista e afável, ao contrário do apressado Jong, que é inquieto e cheio de neuroses, sendo mostrado em mais de um momento correndo, esbaforido, normalmente na direção do nada, ainda que claramente ele tenha um objetivo em mente, embora nem ele saiba direito o que é e por isso essa sensação de nada e vazio.

Em Chamas é um filme de incertezas e de uma busca não planejada por identidade, onde a sensação de pertencimento a algo impera sobre as ações dos humanos vistos em tela, manipulando estes para cumprirem seus destinos, mesmo que essa manipulação e controle seja inconsciente e a subserviência dos mesmos também não seja escolha dos próprios.

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