[Crítica] Esqueceram de Mim

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Esqueceram de Mim é conhecido essencialmente como o clássico de natal capitaneado por Chris Columbus, ainda inciante na função de diretor após alguns sucessos como roteirista, e claro, lembrado pelo seu protagonista mirim Macauley Culkin. No entanto, a realidade estabelecida na casa dos McCallister foge um bocado do maniqueísmo comum à comédias infantis, em especial para o “herói” da jornada, o pequeno Kevin. A casa cheia, com quinze pessoas, pré-viagem natalina, demonstra que o garotinho não tem qualquer privacidade ou ideia do que é o conceito, tanto que seu desejo mais íntimo, é o de ficar sozinho em seu lar.

Os preparativos para a viagem de fim de ano à Paris acirra os ânimos dos familiares suburbanos, ao ponto dos adultos estarem sem paciência, deixando os primos e irmãos de Kevin praticarem bullying  com o protagonista. Em um revide a uma dessas agressões leves, o garoto molha os passaportes de viagem, sendo posto de castigo por sua mãe, Kate (Catherine O’Hara),  que o isola no porão, em suma, a maior desculpa para ter sido deixado para trás.

Há tramas paralelas a relação entre uma mãe preocupada e seu filho arteiro, como o ingressos dos dois assaltantes, Harry (Joe Pesci, que faz um esforço hercúleo para não pronunciar palavrões), que até se dá ao trabalho de se fantasiar de policial, e de Marv (Daniel Stern), que na intenção de assaltar a casa na ausência do clã, mas é nos agouros de uma criança, solitária e repleta de imaginação que moram os reais problemas que o roteiro de John Hughes alude. Kevin é deixado sozinho graças a correria que seus pais, tios e irmãos protagonizam, fator causado pelo claro cansaço que a rotina produz neles, gerando um desejo tão grande de fugir do cotidiano opressor da cidade de Chicago, que a falta de um dos membros da família simplesmente não é sentida ao partir.

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A criatividade da criança faz ver apuros que não existem, seguidas de atitudes pouco condizentes com o comum a um menino de sua idade, preparando ardis para os arrombadores, através de sombras causadas por objetos que ele monta em sua sala. A inteligência que ele demonstra talvez seja a manifestação da hiperatividade que sua mente produz, sobrecarregada pela paranoia enérgica comum ao quotidiano do americano médio. Kevin é o filho do meio, tanto em seu seio familiar, como na representatividade do comum cidadão inerte, inapto e sedentário do centro-oeste americano.

O esmero de Kevin em montar armadilhas em sua casa confunde o analista quanto a origem desta influência, variando entre o arquiteto com sede de sangue Paul Kersey de Desejo de Matar e o veterano do Vietnã John Rambo. Em comum com o rapaz, os dois heróis de ação têm a desolação por estarem isolados do estado normativo de psique e sentimentos, e claro, a característica de servir como entretenimento fugaz para o seu público alvo específico. A repetição de piadas e situações tem um alvo óbvio, que é alcançar o clichê de humor infantil que normalmente funciona, e que no longa, logra exito. A expectativa por instaurar a normalidade narrativa faz contraponto com a trajetória incomum do garoto, que mesmo solitário e abandonado, consegue ter mais sobriedade e sabedoria do que qualquer adulto, rivalizando essa personalidade brilhante intelectualmente com a clara nostalgia originada de um filme que é considerado exemplar na temática natalina.

O desfecho adocicado combina com a temática pueril e é condizente com o comum as comédias desta época anual. O fator mais discutível nem é o retorno da família à Paris e a quantidade de gastos exorbitantes desperdiçados entre ida e volta ao menos da parcela familiar envolvendo os pais e  fraternos de Kevin, e sim a necessidade que o protagonista tem de aprovação de Buzz (Devin Ratray), seu irmão mais velho e agressivo. A camada superficial do roteiro de Hughes tem como alvo a criança que assiste o filme, e a mais contestatória é bastante inspirada, mostrando como o consumismo desenfreado e o stress diários podem afastar pessoas que têm um vínculo sentimental inexorável, fazendo inverter até as prioridades tradicionais, unindo a isto uma fita divertida  e burlesca.

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