Crítica | Fora de Série

Um dos subgêneros mais relacionáveis do cinema, o coming of age, já eternizou clássicos com fãs apaixonados. John Hughes, por exemplo, deu à década de 1980 um dos sentimentos mais gostosos de se revisitar da época, aquela eterna juventude, a sensação de liberdade que aprender com os próprios erros pode dar, e que foi inspirador para as dezenas de anos seguintes. Mas de Curtindo a Vida Adoidado até Superbad e A Mentira, era difícil encontrar bons coming of age de comédia escritos, dirigidos e protagonizados por mulheres, e o recém lançado no Brasil, Fora de Série, defende bem a temática e se mostra uma grande surpresa para alimentar uma safra que pode ter sido iniciada por Lady Bird.

O filme é o primeiro longa metragem com Olivia Wilde na direção e escrito por Emily Halpern, Sarah Haskins, Susanna Goel e Katie Silberman, que já carregam um bom histórico na comédia e no drama. Acompanhamos as duas protagonistas do longa no último dia de aula do ensino médio, Molly (Beanie Feldstein) é uma estudante extremamente focada e mandona e Amy (Kaitlyn Dever) tenta superar sua timidez para conquistar uma menina da escola, amigas de infância elas decidem aproveitar ao máximo a última noite dessa etapa de suas vidas.

O texto, sem dúvidas, é o grande destaque desde o início, é forte a sensação de que o que passa em tela já foi visto antes, mas vem refrescante, o saldo é como de um material quase novo. As personagens alcançam tridimensionalidades através da subversão de clichês reciclados excessivamente pelo subgênero e até pelo próprio cinema estadunidense, são saídas sagazes que impedem Fora de Série de cair em lugares comuns e possibilita espaço para todas as personagens coadjuvantes além da dupla principal.

As piadas funcionam boa parte do tempo e rende momentos preciosos, mas algumas sobram e soam convenientes e previsíveis, com momentos até de exposição desnecessária. Problema que talvez seria mais perceptível com um elenco fraco, o que não é o caso, as intérpretes de Molly e Amy fluem bem entre o humor e o drama e nos faz acreditar que aquela amizade é verdadeira, visível na intimidade que compartilham em cena.

Já a estreia de Wilde na direção não poderia ser mais bem-sucedida, sua câmera traduz com precisão ansiedades de momentos chave, como quando opta por prolongar planos, usar câmera na mão ou quebrar expectativas com a própria linguagem. É um olhar muito sensível e, como já dito, refrescante sobre essa história, expondo caminhos excitantes para esse tipo de abordagem. Prova que a presença feminina atrás das câmeras seja o maior passo a ser tomado, pois o resultado não é nada tímido.

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