[Crítica] A Forma da Água

Após alguns fracassos de crítica com Círculo de Fogo e A Colina Escarlate, o diretor mexicano Guillermo Del Toro ressurge com uma novo longa que conta com fortes elementos fantásticos e nuances de terror. A Forma da Água ganhou o Leão de Ouro em Veneza e não é à toa, pois o filme é deslumbrante visualmente e com um texto muito terno.

A história começa com a funcionária de limpeza Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda e bastante sensível a arte, não tem qualquer receio em saciar seus desejos sexuais diários, a despeito até do pensamento conservador vigente nos anos 1960. Ela trabalha em uma base militar e tem contato direto com o impertinente “sargentão” Strickland, vivido por Michael Shannon.

A trama acrescenta ainda a figura mítica de um ser humanoide poderoso interpretado por Doug Jones, chamado de homem anfíbio nos créditos, que se encontra encarcerado por ser diferente dos demais. Seu semblante lembra bastante O Monstro da Lagoa Negra.

A história é desenvolvida sob a ótica de Eliza, que rapidamente enxerga no ser anfíbio uma figura semelhante a si, inteligente, munida de sentimentos complexos mas que sofre de um problema de comunicação profundo, além de ter em si um talento escondido e começa a se envolver emocionalmente com ele. A inocência e ingenuidade é tratada como uma dádiva quase divina dentro do roteiro de Del Toro e Vanessa Taylor, fato este que torna ainda mais gritante a arrogância e o machismo exacerbado do psicótico Strickland.

Em meio ao cenário caótico da Guerra Fria, os tons acinzentados do confronto entre a União Soviética e os Estados Unidos é mostrado sobre um viés pouco maniqueísta, apesar de mostrar os russos como adversários, também denuncia os desmandos dos americanos, apelando é claro para máscara vilanesca do personagem de Shannon. Seu papel de certa forma reprisa o agente Nelson Van Alden de Boardwalk Empire em seus momentos mais inspirados na série da HBO, acrescentando aí uma carga de egoísmo e necessidade de auto-afirmação via opressão aos que estão abaixo de si.

O desenvolvimento das personagens são bem encaixados à trama, fato que casa incrivelmente com o ritmo do filme. Em alguns momentos ele lembra a valorização do lúdico presente em A Invenção de Hugo Cabret, que curiosamente também conta com Michael Stuhlbarg em um papel secundário, igualmente importante para a trama. O contraponto entre o amor e a ganância é apresentado de uma maneira bastante madura, ainda que não abra mão de ser pueril. Tudo isso faz de A Forma da Água uma pérola em meio ao cinema mainstream, especialmente por não focar em estardalhaços visuais, mas sim em contar histórias utilizando estes recursos visuais como papel secundário à obra final.

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