[Crítica] Fruitvale Station: A Última Parada

Fruitvale Station

Ambientado na primeira década do novo milênio – em 2007, como os modelos antigos de celulares demonstram – Fruitvale Station – A Última Parada começa com uma filmagem amadora, prenunciando o principal ponto da trama e tentando emular visualmente a mensagem escrita antes dos créditos iniciais de que aquele é um filme baseado em uma história real. Oscar Grant (Michael B. Jordan) é um jovem pai de família que não consegue transmitir a mínima segurança para os seus. Sua esposa, Sophina (Melone Diaz) não confia nele por suas infidelidades conjugais – e tem razão nisto, visto que busca reincidir no erro, o sustento da casa também é comprometido, uma vez que ele foi mandado embora do emprego precário que ele tinha, e que se via impelido a vender drogas para sobreviver.

A comunicação de Oscar é feita quase sempre pelo telemóvel, através de ligações em meio ao translado de suas viagens e das mensagens de texto que troca com seus conhecidos. A tecnologia é muito presente em seu cotidiano e é um signo bastante reprisado pela lente. É como se este fosse incapaz de falar por si só, de usar a própria voz e identidade para se comunicar, o tempo inteiro ele precisa terceirizar o seu discurso, não se permitindo envolver com nada e ninguém, mesmo quando a proximidade se mostra necessária.

Assim que tal condição de distanciamento é confrontada, é mostrada uma cena do seu passado, revelando que ele foi um ex-presidiário, e que essa vivência o marcou, não só pela óbvia experiência de se viver enjaulado, mas pela ausência física dos momentos especiais no crescimento de sua filha Tatiana. Sua relação com a sua mãe Wanda (Octavia Spencer) também não é das melhores, seus primeiros diálogos são por telefones, um meio frio, ele tem dificuldade em conversar com ela olho no olho, talvez temendo ter a sua verdade finalmente explicitada.

A câmera segue o protagonista, num ritmo quase documental, usando Oscar como avatar de uma condição deveras comum nas comunidades carentes americanas. A realidade do negro e pobre é explicitada, tudo para eles é mais difícil, desde a simples admissão empregatícia, até a missão de se manter livre de problemas com a lei. Oscar é um menino com idade adulta, sem freios de maturidade típicos de sua idade, mas mesmo em meio a sua falta de senso, ele consegue ver que sua tentativa de mudar de vida é frustrada graças aos seus próprios erros. Ainda assim, ele não consegue ser completamente sincero com ela, mesmo que através de olhares, ele demonstre querer sê-lo.

Apesar de muita reticência, o casal decide passar a virada de ano na cidade, em São Francisco, e partem para a sua diversão, em uma noite que prometeria uma farra, ainda que moderada, visto que seria feita pelo par de casados. Tatiana tenta impedir seus pais de irem, por ter ouvido tiros no lado externo da casa, a realidade dos infantes incluía a violência e temeridade de perder os entes queridos a qualquer momento graças a voraz fúria das ruas. Oscar não parece se assustar com tais coisas, pois ele é parte – ou já foi, de acordo com a imagem que tenta impor – desse universo.

A curva dramática para o evento fatídico só seria mostrada decorridos dois terços do filme. Após se meterem em uma briga num vagão de trem, Oscar e seus amigos são levados para fora do carro, onde sofrem uma coerção dos profissionais de segurança que em seu despreparo, os tratam como criminosos, aos olhos dos passageiros “brancos”, não acostumados a toda a truculência retratada em tela. O protagonista é alvejado, e ao se dar conta disto, ele só consegue proferir que é pai de uma menininha.

O que acontece após estes fatos é uma série de eventos, em que os médicos tentam salvar a vida do ex-presidiário. A câmera passa por toda a fiação dos aparelhos que tentam mantê-lo vivo, grifando mais uma vez o quanto a mecânica é presente na subsistência de Oscar Grant, também determinando que estar por si só não garante que ele se salve, uma vez visto seu crítico estado de saúde.

O retrato pintado ao final é triste por ser real, e não é complacente com o público, mostrando a reação emocionada daqueles que queriam bem o personagem central da história, que não por acaso foi executada pela atriz com maior poder dramatúrgico. O desfecho é pródigo em demonstrar o quão devastadora pode ser a perda, mesmo para quem convive com casos semelhantes todo os dias, sem tentar isentar o indivíduo alvejado, mostrando-o cruamente, como uma pessoa que falha e erra, mas sem muita perspectiva ou possibilidade real de mudança. Em seu primeiro longa-metragem, Ryan Coogler consegue trazer uma trama que é muito equilibrada em pintar um quadro realista e passar uma sensação de emoção conflituosa, sem cair no clichê de transformar a vítima do mau trato em um inocente, e vítima também das circunstâncias e da sociedade.