[Crítica] Garota Sombria Caminha Pela Noite

Gatoa Sombria Caminha Pela Noite

A figura do vampiro, criada na literatura e fundamentada no cinema, passou por releituras que nunca perderam suas bases. Anne Rice transformou-a em personagens fatalistas e românticas; Stephenie Meyer lhe deu uma roupagem pop com direito a brilhar quando em contato com o sol. A solidão foi tema de Deixa Ela Entrar, adaptação do romance de John Ajvide Lindqvist. Exemplos que demonstram como esta figura ainda tem apelo e, devido a sua composição, pode ser lida sob diferentes aspectos e interpretações.

Garota Sombria Caminha Pela Noite se baseia na graphic novel de mesmo título cuja autora, Ana Lily Amirpour, também assina o roteiro e a direção deste longa-metragem. Mantendo a fidelidade narrativa de sua obra, a adaptação foi produzida em preto e branco. Uma referência às cores da história que também explicita um estilo antigo do cinema, quando ainda não havia cores, e o jogo de luz e sombras era executado de maneira diferente. Atualmente, a ausência de cores se torna um diferencial, evocando essa época anterior.

Semelhante ao conceito de Jim Jarmusch e seus vampiros solitários e entediados em Amantes Eternos, a produção apresenta um conjunto de personagens deslocados, além da garota referida pelo título, uma pessoa explicitamente fora da sociedade e que vaga pela noite à procura de alimento. Desenvolvendo um cunho romântico com doses de terror bem inseridas nas cenas, as ações da garota são suficientes para que o público infira sua solidão. Motivo pelo qual se aproxima de um outro, Arash, tão solitário quanto ela.

A cidade de Bad City parece ser povoada somente pelos personagens apresentados na história, graças ao vazio do cenário, um local desolado onde nada parece acontecer além de uma usina que funciona 24 horas a todo o vapor. Existências que parecem frias e com poucas conexões, um traficante local, uma prostituta velha, uma criança, um pai viciado, habitam um círculo cotidiano e vazio.

Quando a garota e Arash se encontram, passam a compartilhar uma existência mínima em conjunto, deslocados e tímidos para saber se estão se relacionando corretamente. A garota vampira é apenas o exemplo máximo de um afastamento que o garoto também sente, como se fosse incapaz de reconhecer outra pessoa como um semelhante.

Parte das cenas do casal é realizada em um silêncio incômodo, como se ainda não tivessem intimidade suficiente para conversar mas se sentissem satisfeitos com a companhia um do outro. A imagem é fundamental para a interpretação das cenas e dessas lacunas. Conforme conhecemos cada personagem, observamos que todos estão à margem de si mesmos, sem um caminho para seguir.

O vampiro, como um ser único e solitário, bem como o deslocamento do rapaz, não é inédito, trata-se de um tema interessante de ser abordado mas comum, ainda que seja uma releitura diferenciada do conceito vampiresco. O visual em preto e branco intensifica a visão de um mundo, ao menos, diferente daqueles outros universos ficcionais, e promove uma composição bem realizada em estética com uma bonita história dramática de horror sobre a solidão.