[Crítica] Godzilla (1998)

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Após os ataques por meio de armas nucleares dos americanos ao Japão, os criadores de conteúdo do país atacado passaram a explorar um filão que levava a exposição à radiação como algo transformador e surpreendente, inclusive antes de Jack Kirby e Stan Lee. Em 1954, estreariam o filho mais ilustre desta maldição, Gojira (Godzilla no ocidente) que seria protagonista de quase 30 produções japonesas. Claro que com a popularidade e com a ganância típica do capitalista estadunidense, os yankees se ocupariam de fazer a sua própria versão do monstro.

Mas tal versão seria diferente em sua origem, o que não é uma novidade, vide a versão de 1956, Godzilla King of Monsters, com inúmeras cenas alteradas, que buscavam eximir os americanos da culpa pela catastrofe nuclear. Então, capitaneada pelo amante do cinema catástrofe e da canastrice, Roland Emmerich, estrearia Godzilla no ano de 1998, que emularia o visual de Parque dos Dinossauros, mas claro, sem todo o repertório visual e abordagem única de Spielberg, tampouco sem o carisma da maioria dos arquétipos dos exploradores da ilha, em vez disso, a fita se apóia nas costas de Mathew Broderick, que faz o doutor Niko Tatopoulos, especialista em minhocas, e Jean Reno, que interpreta Phillipe Roach, um funcionário de seguradora que esconde um mistério que quase ninguém se interessa em saber – e que se revela (tristemente) com a origem do lagarto super desenvolvido!

O grupelho de exploradores, após ver uma pegada de extensões gigantescas, resolve seguir os rastro de destruição, acompanhando a criatura pelo oceano. No entanto, mais importante que tais coisas é a necessidade que todas as mulheres do filme têm em reafirmar que Nick é um bonitão. O monstro reptiliano parece ter uma mentalidade semelhante a humana, primeiro por atacar o Japão, sua terra natal e depois viajar até outro continente para destruir outra potência mundial, os EUA, logo em Nova Iorque, a Roma moderna, e logo que o faz, interrompe um tragicômico discurso do presidente em meio a uma tempestade e aos eleitores com guarda-chuvas.

Ao menos as cenas de destruição da metrópole são interessantes, e o CGI do réptil não é tão mal feito, ainda que sejam bastante precários, mas nada que comprometa, como as breguíssimas cenas de contato visual entre o dinossauro superlativo – que varia de tamanho – e Nick. As cenas após este emocionante encontro são ainda mais toscas, mostrando os embates mais esdrúxulos da história do cinema. O design do mostro causou muita chiadeira nos fãs da cine-série, críticas – estas injustas-, se levar em conta que a lógica estrategista do bicho é ainda mais desrespeitosa com o cânone. Godzilla embosca os mariners, escondendo-se atrás deles e dando o bote em helicópteros de modo sorrateiro, enquanto os líderes políticos se enrolam em meio a piadinhas infantis e inoportunas.

Após quase uma hora decorrida, o motivo da viagem do monstro é assumida como a migração que intuía uma reprodução destes. Um sub-plot fajuto é montado, mostrando o casal Nick e Audrey Timmonds (Maria Pitillo) jamais consumado tendo uma crise, o que mudaria o status quo do explorador, fazendo-o sair das investigações americanas e introduzindo-o ao núcleo francês, capitaneado por Roaché, sendo estes, os únicos preocupados com a multiplicação dos monstros. Se esta é uma crítica à inteligência das forças armadas americanas, esta passou longe de ser interessante ou inteligente.

A batalha pelos mares com o kaiju é entediante e fraca, carece de emoção e piora graças a total falta de conteúdo dos personagens. A trilha sonora também não ajuda, pois tenta ser edificante mas só consegue ser digna de risos, mesmo com o acréscimo de músicas do Foo Fighters e Rage Against the Machine – que são uma das poucas coisas legais da fita.

Os bonecos mecatrônicos que fazem os filhotes são horríveis, os bichinhos nascem banguelas mas têm um instinto assassino voraz, causando muito medo nos personagens maravilhosos. Graças a facilidade de se procriarem. Após um plano super mal construído, que visava destruir as crias recém-nascidas, os “heróis” percorrem a cidade após um alívio muito breve, que logo é seguido por uma perseguição da feroz progenitora que busca vingar o assassinato dos seus rebentos. Esse clímax é tão fraco quanto o resto do filme. Certamente o maior problema do remake de Emmerich é a ausência de foco e a dificuldade em decidir qual seria a abordagem melhor, visto que nada é desenvolvido de modo satisfatório, sejam os personagens fracos, a catástrofe da cidade, que não causa qualquer trauma ou comoção na população, e até a figura do monstro, que não é amedrontadora e nem de caráter trash, como eram os primeiros gojiras, em suma, é só mais um produto sem qualquer alma, substância e conteúdo.